Cavalos correm pelos campos da colina chamuscada de chuva

Na sala do consultório, antes de ser chamado para a consulta com o oftalmologista, frases soltas percorrem o meu pensamento: os cavalos correm pelos campos da colina cor de cinza chamuscada de chuva.
À minha volta uma quantidade imensa de pessoas também aguarda a vez. Os olhos falham. Qual desespero maior do que a cegueira? Nem a certeza da morte é tão cruel. Eu escrevo, leio, vejo filmes. Se a luz dos meus olhos se forem, o som da boca irá junto, me calarei e mendigarei aos meus ouvidos para que não se fechem e ao menos eu possa ouvir o trotar dos cavalos correndo pelos campos da colina, guiado pelo tamborilar dos pingos da chuva, formando aos poucos chamuscos cinzas de quem apenas ouve e nada vê.
O frio de agosto me percorre enquanto a senhora de máscara cor de rosa ao meu lado pinga o colírio nos olhos sem pedir ajuda: ela mesma abre com as mãos as pálpebras e pinga uma gota em cada olho numa exatidão comovente. Depois sorri para mim, um riso convencido atrás da máscara.  Sinto por ela a mesma admiração que tenho pelos alpinistas, os paraquedistas e toda pessoa que desperdiça o domingo para lavar o carro ou ir à igreja.
O casal na outra ponta toma conta de uma única poltrona, vive num mundo apenas deles. Ela se deita no ombro do companheiro e parece que são uma só pessoa. Devem dormir de conchinha. Graziela cuida de mim, se encarregará de pingar o colírio. A moça se mexe no ombro do rapaz e ele alisa os seus cabelos. Cena linda que registro na mente, mesmo com os olhos um tanto embaçados. Qual deles está com problema nas vistas? E se um dos dois não enxergar mais? Os corpos se atrairão, certamente, e continuarão dormindo de conchinhas. Ouço ao longe o trotar dos cavalos. É nesse instante que consigo ouvir meu coração.
Peço socorro às imagens do passado, preciso fugir da realidade. Então se abre no meu pensamento a manhã de um domingo do passado, o mesmo sopro frio de agosto, vejo a minha mãe chegando da feira trazendo uma galinha embaixo do braço. Ouço nitidamente os cachorros latindo, “passa, passa” ela diz, tentando se desvencilhar, corro para ajuda-la e os olhos da galinha eram de fogo, sem piscar, o medo refletido, a percepção do fim. Meu padrasto surgiu de repente, um facão nas mãos, não disse nada, apanhou a galinha das mãos da minha mãe e lhe decepou a cabeça. Mesmo morto, o bicho pulou várias vezes, esparramando um filete de sangue pelo chão vermelho, imagem presa na minha mente para sempre, a criança de dez anos encarando os pequenos olhos da galinha morta, inerte, sem luz. Senti a crueldade humana e não conseguia olhar para minha mãe.
Durou até o almoço ficar pronto e a galinha era o prato principal:
– Eu quero a coxa! Disse e provavelmente os meus olhos brilharam, sem piscar.
A fome dói mais que a piedade.
Tempos depois, levei meus filhos pela primeira vez à uma churrascaria. O Bruno queria coração de frango e o garçom fez descer do espeto até o seu prato cinco ou seis pedaços de uma só vez. Ele comeu, adorou, pediu mais. Fiz um alerta:
– Coma tudo, não deixe nada, fique sabendo que cada coração desses era de um frango que morreu para você se alimentar. – Ele me olhou com olhos de surpresa e no instante seguinte seus olhos se transformaram numa cachoeira de lágrimas (nunca vi ninguém chorar tão bem quanto o meu filho Bruno) e soluçava, o rosto vermelho de tanto chorar, vez em quando lançava em minha direção um olhar de revolta misturado com piedade –.
– Você devia ter me falado antes, pai.
– Achei que você soubesse. De onde mais poderia sair o coração de frango se não do peito do bicho vivo? Achou que davam em árvores?
– Achei.
E não disse mais nada, comeu tudo e não falamos mais sobre o assunto.
A senhora do colírio me desperta, me traz de volta à realidade como num beliscão: retira a máscara cor de rosa do rosto por instantes, olha para mim como se me conhecesse há muito tempo, confidencia:
– Fico sufocada às vezes.
Eu sorrio de volta e meu gesto de mãos são palavras, tudo bem, acontece, mas seja rápida.
Ela tem a voz do passado, tal qual os pingos da chuva chamuscando os campos da colina até torna-la cinza.
Eu sempre parei para reparar as pessoas, as flores e as árvores. Deve ser esse o motivo de guardar tantas lembranças. E volto ao passado: nunca me fizeram um bolo de aniversário, jamais ouvi o cantar de parabéns em minha homenagem, mas a fumaça escapando no fio da vela do bolo tem o mesmo cheiro de velório. Fecho os olhos e sinto aquele cheiro. Coisa de aquariano.
Antes, quando diziam que a vida é passageira, eu ria, queria comer o bolo de aniversário dos outros, ver a vela se apagando até o cheiro da festa se confundir com o cheiro de velórios. Os bolos tinham gosto de manteiga e algumas bolinhas brilhosas de chumbo doíam os dentes, mas ninguém deixava restos no prato.
O casal enfim se mexe, ele atende o celular e aponta para a companheira o relógio na parede.
O carinho dá lugar à pressa.
As horas…Nunca acreditamos no relógio, mas os ponteiros andam, tic, tac, e os minutos se tornam horas, o dia é segunda, mas logo é domingo, a semana que vem é amanhã e já se passou tanto tempo desde aquela vez que vi minha mãe trazer a galinha embaixo dos braços, o corte na cabeça, o cheiro do assado, frio de agosto arrancando lágrimas de sopro de vento.
Coço os olhos ardentes, naquele tempo não precisava suspirar pelas luzes do dia, eu enxergava tudo, de perto e de longe.
A espera também me faz ouvir músicas na mente, vejo a batuta do maestro sem enxergar-lhe as mãos, a cortina ainda aberta, mas o pano já é opaco.
Enfim sou chamado, na frente do casal e da senhora da máscara rosa. Nunca saberei qual dos dois está com problemas na visão e a senhora da máscara rosa pode até ser um fantasma, porque de passagem, olhei para o casal  e vi uma vela de aniversário se apagando, mas quando olhei para a senhora da máscara cor de rosa, senti o cheiro de velório.
O médico me recebe num sorriso, já me conhece.
– Não é nada grave, não precisa fazer drama.
– Estava ardendo e tudo embaçado.
– Vou aumentar o grau.
– Mas você está dizendo que terei que usar colírio para o resto da vida.
– Sim, um simples colírio. Imagine a diferença para alguém que precisa implantar uma lente ou algo assim.
Sou descrente, mas nesses momentos, murmuro orações.
Ao sair, a senhora ainda aguarda a sua vez e me lança um sorriso atrás da máscara rosa.
Ela conhece o meu desespero, sabe que jamais conseguirei pingar sozinho o colírio nos olhos.
Será?
A vista anda fraca, mas o pensamento é feito a chama da vela do bolo de aniversário: tremula, mas ainda queima, segurando o sopro do tempo, tic, tac, tic, tac.
Tento, e consigo, uma gota certeira de colírio nos olhos bem abertos.
E então já posso ver os cavalos correndo pelos campos da colina, tudo verde, brilhante, sem nenhum tom de cinza.

Vou riscar as tatuagens e guardar o meu amor na masmorra.

O amor é um sentimento que mantenho preso numa masmorra. Quando solto é fogo que queima, o declínio da razão. Sou cega quando me apaixono, me transformo numa maluca, incapaz de raciocinar corretamente.

O que se passou pela minha cabeça quando resolvi tatuar o nome dele no meu braço? Não contente, acrescentei o símbolo do Flamengo, time que ele ama, logo eu, que nunca gostei de futebol. Gabriel não merecia nem um pingo da dor que senti. Em algum momento da nossa relação a luz se tornou intensa, veio a cegueira, o transe completo e o pássaro acabou liberto da gaiola.

Quando nos conhecemos, Gabriel fixou o rosto em mim na sala de aula de um curso de Excel, armado naquele jeito estranho de olhar, blasé e vagaroso, o sorriso que não começava nos lábios e sim nas rugas dos olhos. Toda mulher enxerga sem encarar: o homem era pequeno, mas confiante. Sou uma mulher grande em tudo, quase dois metros de altura, do nome difícil, Stephania, mesmo nome da minha bisavó, uma polaca de sangue forte, mulher benzedeira e parideira, mãe de doze filhos.

Os opostos se atraem. Eu queria apenas aprender a mexer com planilhas, a empresa estava pagando, precisava prestar atenção. O Gabriel não passava de um vagabundo que o pai pagou o curso para se livrar da presença dele dentro do quarto o dia todo. 

No intervalo, ele sentou-se na outra ponta da mureta e não desistiu enquanto não olhei para ele. Sorriu aberto, aquele riso feito cascata, começando nas rugas dos olhos e só depois atingindo a boca.

Um homem tão pequeno, o que poderia querer com uma mulher enorme como eu? Ele insistiu, o rosto fixo em mim. Retornei o sorriso e abaixei a cabeça. Depois me puni com um soquinho na coxa, detesto quando abaixo a cabeça.

No outro dia já se sentou ao meu lado, ignorando a aula, o professor, as fórmulas e os números nas planilhas.

– Oi, eu sou o Gabriel. – Disse, sem tremer a voz, o ar sonso-blasé.

– Oi – não revelei o meu nome, mas senti o rosto ferver e ele percebeu – 

– O que vamos fazer quando sairmos daqui Stephania?

Como sou burra, é claro que ele sabia o meu nome, ouviu diversas vezes durante a chamada. Foi então que o monstro da sedução me abraçou. Eu não tinha nada para fazer, nenhuma audiência, nenhum cliente para atender, nada.

– Não tenho nada para fazer. Você tem?

Voz baixa, rouca, o pensamento imaginando um rio buscando a cachoeira.

Mostrou-me o molho de chaves.

– Estou de moto. Um passeio?

Dei outro soquinho na coxa, a perna ameaçou tremer. Pensei dizer não, mas eu realmente não tinha nada para fazer e minha única dúvida era se aquela criatura tão pequena sabia pilotar uma moto.

– Tudo bem, vamos.

E não olhei mais para ele. A aula tinha ainda duas horas de duração, mas demorou eternamente.

Na saída, rosto lívido, o procurei em meio à multidão, até dar com ele no estacionamento da escola, sentado na motocicleta e olhando para mim, o sorriso já instalado nas rugas dos olhos, pronto para descer até a boca. 

Pelo menos a moto não é pequena, imaginei e sorri.

Montei num passar de perna único, como se fosse acostumada a andar de moto, ainda que a última vez tivesse acontecido na adolescência.

– Você se parece com a Marisa.

– Marisa?

– Marisa Horta.

– Ah sim… (Marisa Orth, ela de novo, sempre fazem essa comparação odiosa).

– Aonde vamos?

– Dar um rolê. Coloque o capacete e segura firme na minha cintura.

Juntei as mãos e ele acelerou. Estava um pouco gordo, deu para sentir, mas quando meus braços subiram até os seus ombros, a grande surpresa, ele tinha músculos. Talvez frequentasse alguma academia.

Gabriel rodou o centro da cidade e depois pegou a saída para São Paulo. O tempo todo falava alguma coisa que eu não entendia por causa do vento, e a tudo respondi sim. Quando ele virou e estacionou na garagem de um motel a minha reação foi uma mistura de surpresa, espanto e raiva. 

– Cara, a gente mal se conhece e…

Ele armou no rosto uma expressão de desapontamento, as mãos agitadas tentando ajeitar os cabelos esparramados pelo capacete:

– Você disse sim diversas vezes no caminho.

– Eu não ouvi nada do que você perguntou. O sim foi uma espécie de livramento.

– Até o convite para o motel você não ouviu?

– Não ouvi nada! Vento, capacete, cabelos nos ouvidos, surdez completa, entende? Você foi direto ao ponto, não falou nada de si, já veio me trazendo para um motel, você é maluco…

– Falei que sou solteiro e gosto de você desde os tempos do cursinho.

– Cursinho? Nos anos noventa? Cara, eu tinha dezoito anos!

– Não mudou quase nada…

Fiquei sem graça, um leve rubor tomou conta da minha face, não sabia o que dizer.

– Você nem se lembrou de mim. – Disse e suspirou fundo.

– Olha, não me leve a mal, mas eu nunca….

– Então suba e vamos embora. — Fez ele, um tanto enfurecido: —

Não foi um convite movido pelo sentimento de desculpa ou arrependimento, mas sim uma espécie de ordem, dura, direta e desde que saí da casa dos meus pais, não obedeço às ordens de ninguém. Além do mais, já estávamos mesmo ali e a última vez que fiz amor a Dilma ainda era a presidenta.

E porque os homens podem fazer sexo no primeiro encontro e as mulheres não? O gavião e a galinha? Comigo não. Afinal, ele não era totalmente desconhecido, já tínhamos convivido duas semanas no curso de Excel e fizemos cursinho nos anos noventa.

Apanhei o capacete das mãos dele:

– Tudo bem, vamos entrar.

Ele tremeu, eu dei soquinhos na coxa, e lá fomos nós. Uma cama imensa, o lençol caprichosamente esticado, a luz mortiça da tarde se acabando, o resto do mundo num silêncio cúmplice lá fora e o sorriso do Gabriel, aquele que começa nas rugas dos olhos e vai descendo até os cantos da boca, bem diante de mim.

Nada mais posso contar, minha intimidade está instalada no escuro de uma masmorra, que fica após a ponte acima do lago, no qual passeiam, de um lado para o outro, diversos crocodilos. Nem às sombras confesso os meus gemidos. Mas posso dizer que foi bom, quem diria, aquele homem pequeno…pequeno em tudo…Ah, embaixo da ponte que protege a masmorra há uma corrente de água cristalina em busca da cachoeira…

No outro dia ele já me esperava em frente à escola, ornado de um brilho de triunfo difícil de explicar. Me apanhou pelas mãos e tentou me beijar. Dei-lhe o rosto, neguei o que ofertei com fartura menos de vinte e quatro horas antes, entre quatro paredes. Ele insistiu e cedi sem muito esforço.

Eu não queria namorar ninguém, mas quem sabe, depois de ontem, os crocodilos que protegem a masmorra morreram afogados, colocando fim às noites solitárias…

O que começou num encontro casual, se tornou sério, engatamos firme o namoro e no começo foi tudo tão bom… Gabriel me apresentou à sua família, fiquei amiga de todo mundo, na segunda semana a mãe dele já me chamava de filha.

Nunca se acostumaram com o meu nome, para eles eu era uma mulher enorme do nome confuso. E assim, de Stephania, me transformei na Estepe. No começo achei lindo, divertido, fofo: “Estepe, cunhada linda, mulherão da porra essa Estepe, venha Estepe, o jantar está pronto, Estepe, amada Estepe”.

Durou até o domingo perto do natal quando surgiu por lá, “só de  passagem”, a ex do Gabriel, uma moça magra, dos olhos enormes, nariz adunco, feia de rosto, mas das nádegas salientes e o flagrei olhando para ela, armado naquele ar blasé-vagaroso, as rugas dos olhos se contorcendo, o riso pronto a se armar.

Estou sempre duas doses acima na desconfiança. Num instante, no meu íntimo pensamento, ser chamada de Estepe se transformou num deboche. O ciúme a tudo desgasta, até mesmo o amor. Eu sempre fui muito desconfiada. O castigo dos céticos é duvidar de tudo, inclusive das próprias dúvidas. Fui levando o nosso caso por mais um tempo, mas o alerta estava definitivamente ligado: nas festas, nos bares, nas reuniões da família, sempre tinha outra mulher e lá estava aquele olhar sonso-blasé, o mesmo risinho do Gabriel, começando nas rugas dos olhos e descendo até os cantos da boca…

Como não percebi antes? Gabriel sempre jurou fidelidade, mas que mulher fraca é essa que acredita em juras de homem, perguntaria minha finada avó, a velha polaca. Eu que não sou, respondo para o vento.

E então a tatuagem deixou de fazer sentido, se tornou a raiz dos meus arrependimentos, uma prova desenhada de que fui enganada.

Queria voltar no tempo, quando a moto virou a primeira esquina, daria um toque nos ombros do Gabriel pedindo para voltar, sem lhe dar chances para retrucar, mantendo o rosto sério enquanto ajeitava os meus cabelos assoprados pelo vento.

– Como vai ser? – Perguntou o tatuador.

– Depois de Gabriel, escreva Garcia Marquez. Em cima do escudo do Flamengo, desenhe um coração bem grande e pinte-o completamente de preto. E nem senti dor enquanto o tatuador fez o seu trabalho.

O amor acaba. O meu acabou na última tragada de cigarro, o filtro ainda queimado nos dedos trêmulos, a bagana jogada na encruzilhada do lago frio lá fora, aquele mesmo lago que descarrega num rio em busca da cachoeira, a correnteza das águas borbulhantes, mas que nunca sorri.

Acabou. Não volta mais.

Sozinha novamente – suspirei – e depois mergulhei o meu corpo nas noites tormentosas, enrolada num cobertor, aprisionada no canto da masmorra, os pulsos envoltos em algemas de aço entre duas rochas, enquanto a garganta ressecada impede o soluço, mas não as lágrimas.

Elas rolam, rolam, rolam no meu rosto febril…

Ismália, a lagartixa e o vendedor de biju.

Acordei com a Ismália de Alphonsus Guimaraens caminhando no meu pensamento. A virgem quase morta, semienlouquecida, sem saber se queria a lua do céu ou a lua do mar, os pés fincados nos últimos torrões de terra de um despenhadeiro, observando lá embaixo a luz opaca de um vilarejo distante, restos de mundo apagado no qual um rapaz caminha apressado, empunhando sua jaqueta amarela contra o vento.

Alphonsus Guimaraens preenche uma lacuna inexplicável no meu gosto mortiço pela poesia. São ecos de dor rimando assombros e exclamações. Desde quando eu era jovem, Ismália aparece nos meus sonhos e nunca consegui espantar para longe a dor do poeta.

Em mim, Ismália vive e se mistura a outros personagens, como agora, com o Jonas da série Dark, navegando em perturbadoras idas e vindas ao futuro e ao passado.

Dark é tão fascinante que me fez pregar a atenção na televisão e maratonar durante três dias seguidos os episódios da terceira e última temporada, resultando nuns pensamentos estranhos que me apanharam na forma de inquietantes interrogações:  e se tudo for mesmo efeito de uma Matrix? E se ocorrer alguma falha na Matrix, conforme Jonas alertou em diversos episódios da série?

Penso nisso nessa manhã fria de julho, os olhos passeando sobre uma lagartixa grudada na parede, enquanto minha mulher coa o café.

Sou um solipsista convicto quando estou bebendo café. Nesse instante divino, que o paladar e o olfato se chocam, nem sou eu, sou Bob Dylan e Cortázar desvendando o homem que vendia biju e passava em frente de casa todos os dias, exatamente às quatro da tarde, há muito tempo atrás. Eu tinha cinco anos e jamais me esqueci daquele rosto: os olhos azuis enormes, a boca de dentes pontiagudos e separados, cabelos ralos dos fios longos e da pele cor de garapa, bem parecido ao Golum de Senhor dos anéis.

A lagartixa pisca e Ismália sussurra no meu ouvido: “E como um anjo pendeu, as asas para voar…Queria a lua do céu, queria a lua do mar…” faço um pedido calado, num morder de lábios: dê dois passos para trás Ismália, fuja enquanto é tempo, se afaste do despenhadeiro, não encare o abismo, suas asas são apenas estrofes utópicas de um poeta atormentado.

Alphonsus, pobre Alphonsus…

Talvez o retrato real do vendedor de biju fosse mais ameno –  Golum é muito apavorante – era na verdade um senhorzinho cansado da lida, dos cabelos finos, suados e espigados, escapando pelo chapéu de palha, até se esparramar na testa, a pele castigada pelo sol, fazendo arder os olhos grandes de tanto sofrer, as mãos ardentes de empurrar o carrinho do biju, os pés dos sapatos furados buscando a paz de uma sombra na árvore. Talvez… Mas o desenho na minha mente é o de Golum e não consigo consertar.  

Se existe a Matrix, o antigo vendedor de biju é o sujeito que a mantém ativa.

Um calafrio percorre meu corpo quando penso nisso. E se ele se cansar de vez e deletar tudo?

Anos depois, tive um professor de matemática bem parecido fisicamente com o vendedor de bijus. Terças e quintas – pontualmente às sete horas da noite – os dias das aulas de matemática, palco de um dos meus tantos tormentos.

O barulho de giz riscando a lousa de números e sinais, a voz cansada, o olhar repentino para trás, indo de encontro aos meus olhos escondidos de medo no canto esquerdo da sala de aula.

– Entendeu? – perguntava o professor, assim mesmo, no singular, olhando diretamente para mim.

Falha na Matrix…

Eu olhava para ele que me devolvia o olhar, parecendo ler meus pensamentos.

Aprendi o teorema de Bhaskara movido pelo medo.   

O tempo passou e o vendedor de biju, depois professor de matemática, se transformou no motorista do ônibus 157 que fazia a linha centro – Cophavila II e passava pontualmente as cinco e meia da tarde, descendo a Rua Maracaju, completamente lotado, virando a Calógeras, depois a Afonso Pena, atravessando os trilhos, esparramando os corpos, mas pelo menos dessa vez o seu olhar era reto, as mãos no volante, às vezes cambiando a marcha num esforço de estalar as veias.

– Quero mais café – digo e já apanho o bule para perto de mim.

A Graziela me olha atravessado:

– Já estamos atrasados.

Desfaço do aviso num riso de canto de boca: já podemos nos permitir alguns atrasos.

– Você já notou como são enigmáticas as lagartixas?

– Lagartixas? O que tem elas?

– Estava pensando, e se tudo for uma falha na Matrix?

– Ah pronto! Eu falei para você não assistir Dark…

Sorrimos, mas continuei pensando: e se a lagartixa for parte real do universo e nós apenas um quadro na parede que ela observa enquanto espera, pacientemente, surgir um bicho apetitoso para lhe saciar a fome?

Graziela balança a cabeça e come a torrada. O barulho me irrita e tento conversar em pensamentos com a lagartixa: olá, eu sou humano, consegue entender a minha fala? Abane o rabo se sim.

Por incrível que pareça, o bicho fez um leve balançar de rabo.

– Você viu isso?

– Não vi nada.

– A lagartixa! Ela entende o que eu penso.

– Pronto, lá vem você…

– É sério, ela mexeu o rabo.

– Deixa o bicho em paz e por favor, não comece com aquela estória do vendedor de biju parecido com o Golum.

– Vou tentar de novo. Observe: lagartixa, existe a Matrix? Se sim, mexa o rabo.

Graziela mantém o olhar preso na lagartixa por dez segundos.

Nada. Completamente imóvel. Ela ri e balança a cabeça negativamente.

Fiquei quase dois minutos esperando e nada. Maldita lagartixa!

– Não esquece a máscara e vamos indo.

Um último gole de café e a pressa acelera os nossos passos.

O barulho da garagem subindo é a trilha sonora ideal do mundo real se abrindo em cortinas.

E o corpo de Ismália perdeu as asas que Deus lhe deu, subiu ao céu e depois caiu no mar e eu…eu conduzo o carro terra abaixo, sem asas para voar. Máscaras, óculos embaçados. Esse vírus maldito anda levando embora as pessoas erradas: mal me recuperei do Aldir Blanc, agora foi o Antônio Bivar. 

Essa pandemia só pode ser uma falha da Matrix.

Sigo dirigindo enquanto o pensamento borbulha: Ismália sou eu, diria Alphonsus Guimarães, tal e qual Flaubert bebendo veneno na intenção de salvar Emma Bovary.

Peguei cinco sinais abertos e fiquei aborrecido, desejava um sinal fechado para digitar rapidamente no celular um pensamento que me ocorreu de repente, um conto narrado em primeira pessoa, eu transformado numa lagartixa, passeando pela parede à espera de uma mosca descuidada:  que bichos estranhos são aqueles bebendo café e comendo torradas?

Deus é o tempo, definiu Jonas nos momentos finais de Dark. O tempo, logo ele, um túnel sem fim…

Venha Ismália, pegue nas minhas mãos, não encare o abismo, siga o alerta de Friedrich, o bigodudo:  “Se ficar muito tempo olhando para o abismo, o abismo também olhará para você”.

Enfim, chegamos ao nosso destino.

– Vamos entrar logo, antes que apareça o senhorzinho vendedor de biju – diz a Graziela em meio a um sorriso.

Na mesa do escritório, finalmente os pensamentos vão embora, levados pelo sossego de um gato vadio que aparece de vez em quando e sequer lhe demos um nome.

Eu o desprezo, mas ele gosta de mim, quer me chamar de seu dono.

Se for fêmea será Ismália, se macho, Jonas.

Depois levanto-lhe o rabo e verifico – penso e sorrio – enquanto o bicho rosna, deitado nos meus pés.

A batalha entre o hipocampo e o canal, ao som de Maiara e Maraisa

Recentemente, numa reportagem, fiquei sabendo que guardamos a nossa memória na parte frontal do cérebro, uma região chamada hipocampo.

Gancho feito, entro no assunto dessa crônica.
Quem é capaz de fazer tratamento odontológico em plena pandemia?
No início do ano, resolvi fazer tratamento dentário em um desses consultórios especializados. Cada consulta, um dentista diferente. O lugar é extremamente limpo e organizado, mas sinto como se estivesse entrando no consultório do doutor Frankenstein.
A sala, além de toda a parafernália odontológica, possuía, de frente à cadeira do dentista, uma Tevê.
Achei estranho, mas não disse nada.
O dentista se mostra uma espécie de Deus, todo de branco, máscara cobrindo parte do rosto, cabelos grisalhos, um Richard Gere dos anos noventa.
A auxiliar sorriu ao me apontar a cadeira. Devolvi o sorriso e tentei me ajeitar.
– Fique tranqüilo, não vai doer nada – disse o dentista – abra a boca, por gentileza.
Sempre achei que uma dose de uísque antes de sentar naquela cadeira devia ser obrigatória.
– Vamos fazer o canal do molar inferior direito, ok?
– Sim, sem problemas. – Digo, tentando disfarçar o medo. O dente nem estava doendo, qual será o tal molar inferior direito? Precisa mesmo mexer em quem está quieto?
E no instante seguinte, entre o dente a ser tratado, doutor Gere ajeitou um punhado de algodão de cada lado.
E aí que entra o hipocampo e seu arsenal de recordações.
Faço uso dele para me desligar do sofrimento. Pensar em algo bom enquanto o mundo acaba.  Inicio um exercício, permito o silêncio me envolver, fecho os olhos e escuto uma música orquestrada. Música orquestrada me acalma desde menino e o pensamento se mistura a uma porção de questionamentos: o oboé é difícil de aprender? Algum violino se encaixa nos meus ombros caídos? Como é o nome daquela orquestra que desapareceu durante um voo em meio a uma tempestade?
O dentista se move ligeiro na cadeira. Uma sede danada me invade.
– Ummm, canal profundo. Vamos demorar um pouco para terminar.
Canal demorado… Significa que o cirurgião dentista irá extrair um nervo de dentro do meu dente e vai demorar a fazê-lo. Para isso ele vai usar anestesia, um tipo de injeção dentro da boca, dói bastante, embora o dentista vá dizer que será apenas uma “agulhadazinha” de nada.
Tento buscar a paz das orquestras. Glenn Miller, o nome do maestro desaparecido no desastre aéreo, surge na minha mente. Aviões caindo e tratamento de canal dentário, não é uma boa mistura. Reviro os olhos, jogo fora a tragédia do maestro.
– Vou anestesiar e você sentirá uma agulhadazinha de nada – ele diz, como se tivesse escutado o meu pensamento –.
A tal agulhadazinha dói uma barbaridade, mas não posso falar nada, a boca aberta, repleta de algodão, se transformando aos poucos num daqueles círculos do inferno de Dante.
– A anistia já fez efeito. Vamos começar… – diz o doutor bonitão e eu me lembro que Lúcifer também é bonito –.
Ele dá as costas para mim na cadeira giratória, começa a apanhar um monte de ferramentas, clesh, sclhesh, plesht.Num momento de total desatino, penso pegar nas mãos da moça auxiliar do bonitão, um gesto de pedido de ajuda, mas ela não nota o meu desespero, permanece impávida, o rosto sereno atrás de uma máscara bege.
Ele gira a cadeira num supetão e fica de frente para mim.
– Fica calmo, não vai doer nada – quando alguém diz isso, geralmente está mentindo –
E como não existe nada ruim que não possa ficar péssimo, a ajudante do dentista resolve ligar a tevê e nela surgem sons e imagens de um show ao vivo gravado em DVD.
Assombrado, percebo que é o de uma dupla sertaneja, Maiara e Marinara, algo assim.
Eu odeio música sertaneja. Ao vivo, então…
Pronto, o inferno está completo. A boca anestesiada parece uma coxinha de frango frito.
O dentista pega algo parecido a um anzol. Pernas tremem e ele nada percebe. Depois retira algo que imagino ser a tampa do dente. O tremor nas pernas aumenta, a voz da dupla sertaneja – eu realmente detesto música sertaneja – se funde ao barulho do motorzinho, ziiiiim, zim, ziiiiiiiim,  o punhado de algodão em cada lado da gengiva se transforma na frase de Brecht: “Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem”.
Um pedido de socorro na mente e o hipocampo, velho camarada, consegue novamente me trazer imagens das boas lembranças:
Eu tinha quinze anos quando isso aconteceu. Ah, quinze anos, um rapaz magro, dos olhos brilhantes, apaixonado pela colega japonesa da escola, pela filha da vizinha e também pela moça mais velha, garçonete do bar do português.
Eu amava as três ao mesmo tempo, sem lhes dizer palavras, amava com os olhos, com o sopro do silêncio fazendo bater o coração juvenil.
Como isso foi possível? Talvez o hipocampo tenha escondido algumas verdades que não desejo recordar.
Longe demais, hipocampo! Vamos aos meus vinte e poucos anos, barzinho com os amigos, muita cerveja e sem hora para ir embora.
Zim, zim, ziiiiim, romck, romck, o barulho na minha boca espanta os bons pensamentos, confundem o hipocampo, aciona lembranças ruins, os cabelos começaram a cair aos dezoito, precisamos reagir hipocampo! E a imagem boa logo vem, final de semana na casa de amigos, no som da vitrola Tetê e o lírio selvagem, Belchior, Djavan, a ideia repentina do amigo Ronaldo, inspirado por uma imensa lua cheia:  fazer serenata para a namora Amanda.  E lá fomos nós, o carinha de óculos, que esqueci o nome, dedilhando o violão, ao lado dele nossa amiga cantora, aquela sim, cantava tão bem, tinha a voz da Zizi Possi, onde será que ela foi morar? Minha função era carregar o abacaxi recheado de pinga e… zim ziiiiimmmm, ronck, ronck, estrondos na boca.Foco no luar, hipocampo, imploro e ele me obedece, fazendo surgir a cena mais bela: a namorada do amigo abre a janela e chora de emoção, mas o pai fica zangado, onde já se viu, incomodar a vizinhança numa hora dessas? Dona Maria, a madrasta da moça, passa o pano, se acalme Osvaldo, eles são jovens, você já fez serenata para mim? Não, claro que não, mas não ligo, talvez um dia, mas quero com harpa e sanfona, e todos rimos de um tanto, nem percebi o abacaxi escapando das minhas mãos…. zum, zim, romck, cuidado com a língua! Hipocampo atrapalhado novamente, me envia antigas notícias ruins, como vou fazer para passar em matemática, física e química? Lembranças boas, por favor, hipocampo! O fim de semana no Cachoeirão, trilhos nos levando rumo ao Pantanal, os amigos no restaurante do trem, cerveja gelada, bife a cavalo, a moça ligeiramente estrábica está olhando para mim ou é impressão?Mais um gole de cerveja, um risinho basta por enquanto, depois crio coragem para perguntar, será que ela vai descer na estação Cachoeirão?
Na tevê, o mundo despenca: “Sabe o que você tem? Tem sorte que cê beija bem” cantam Maiara e a irmã que nunca lembro o nome. De repente, o dentista finalmente resolve retirar o maldito punhado de algodão e esguichar água na minha boca.
– Cospe – ele diz.
Alívio, olhos lacrimejando, vontade louca de me levantar da maldita cadeira. Mas ainda não terminou, ele torna e encaixar algodão entre o dente:
– Coloque a língua para o outro lado – ordena. Obedeço e respiro fundo. Na tela da tevê, as irmãs sacolejam o corpo, é impressionante como elas são queridas pelo público.
 “O culpado de tudo é os Hômeeeeeee, nois mué temos razãoooooo!
Ò céus, lá vem o motorzinho…Socorro hipocampo!
Fecho os olhos novamente e vou lá para o dia do nosso casamento.
A Graziela estava linda, e eu…provavelmente também.
Padre Antônio faz um sermão belíssimo, que dure para sempre, disse ao final, num belo sorriso. Sinto vontade de voltar lá e lhe contar dos quase trinta anos passados, os detalhes das muitas lutas e conquistas, estamos juntos, temos dois filhos, um neto e eu virei escritor, mas será que o padre Antônio se lembra de nós?A auxiliar do dentista traz um objeto pelas mãos e o entrega ao doutor.
– Esse não serve, põe broca maior.
Broca maior? Medo, angústia. Maiara e Marinalva dançam e cantam:
“Se ele te beija gostoso, dá um amasso cabuloso, quem ensinou fui eu, quem ensinou fui eeeeeu”. Chico César, eu concordo contigo, odeio rodeio!Lembranças boas, hipocampo, vamos lá, você consegue, manda alguma recordação feliz, senão vou entortar a língua e jogar fora o maldito algodão.
O querido hipocampo se abre, me envia imagens de bichos, direto da janela do trem, passando Miranda, na curva da mata, um tamanduá abraçado a um monte de cupim.
Até os caramujos do Manoel me acenam, eles sabem do meu sofrimento, ziiiiim, zict, zonk, stronk. Enfim, Corumbá. Que cidade linda, meu Deus! O hipocampo se rebela, tenta me questionar: porque está falando em Deus se você é ateu? É o medo do dentista, o algodão, a língua que não quer parar no céu da boca, a dança e a voz da Maiara e da irmã?
Eu não sou ateu, sou deísta!
Ele não liga, prossegue me provocando: quem é Maiara, quem é Marinara? Ou será Marialva? Consegue me irritar com tantas perguntas, resolvo retrucar: você sabia que hipocampo significa cavalo do diabo?
Maiara e a irmã entram de sola na discussão:
“Cê ta roubando o tempo, cê tá ocupando o espaço dela, os planos do casório, do cachorro, do neném com a cara dela, libera ela, libera ela, libera elaaaaaa”.O dentista enfim para de cutucar o meu dente e ergue a cadeira.
– Pode cuspir.
Fim do suplício.
Durou quase quarenta minutos a tortura.
Não volto mais, dane-se se já paguei o tratamento.
A auxiliar do dentista sorri. Ele me encara.
– Deu um trabalhinho, viu? Estava feia a coisa. Vou marcar o retorno para semana que vem.
Paro e penso: tenho que aguentar. Falta só mais um canal. Sou forte e tenho ao meu lado as lembranças guardadas no hipocampo.
– Tudo bem, semana que vem. Mas posso fazer uma sugestão, doutor?
– Claro que sim.
– O senhor não teria o DVD do Ira ou alguma coisa dos Titãs?
Ele me encara de olhos bem abertos, espantado:
– Você não gosta da Maiara e Maraisa?
Enfim, descubro o nome correto da dupla.
– Nem um pouco.
Ele sorri, um tanto sem jeito.
– Era só falar, temos vários DVDs.  Tem muita gente que gosta delas e pensei que você fosse mais um fã da dupla.
– Não gosto, não. Se não fosse o meu hipocampo, teria desistido.
– Seu hipo o quê?
– Nada não, doutor, nada não.  Até semana que vem!
Abri a porta da saída e senti o alívio dos desamarrados, um daqueles respiros profundos, a brisa gostosa batendo no rosto, o sentimento do dever cumprido.Sou até capaz de ouvir novamente Maiara e Maraisa.
Desligo o hipocampo. Semana que vem tem mais.

O diabo debaixo da árvore num dia frio

Machado de Assis, o pilar da literatura nacional, disse: “ Há um meio certo de começar a crônica por uma trivialidade. É dizer: Que calor! Que desenfreado calor! “
Mas acontece que estamos no inverno e faz um frio dos diabos lá fora. Sempre achei essa frase descabida: um ser do inferno como o diabo, não deve gostar do frio.
O sopro louco dos ventos frios, se tem algo de bom, é aguçar a imaginação.
Otto Lara Resende, certa vez escreveu sobre o alívio de nunca ter sido apresentado ao diabo: “é que, assim como André Gide, depois de uma boa conversa, sofro a tentação de entender as razões do adversário”.  Desconfio que também sofro desse mal.
Em tempos de frio, os olhos embaçados pelo nevoeiro, todos os seres são gatos pardos. Está tudo tão certo e calmo, o casaco, um copo de chocolate, a quentura do meu quarto. Mas alguma coisa me chama até a janela e consigo ver: na esquina, duas árvores em meio à neblina, entre elas, caída ao chão, uma figura de traços humanos tremendo de frio. Eu devia voltar para debaixo das cobertas, ainda é muito cedo, o sábado mal começou, mas não existe sujeito mais curioso que escritor. Desço a escada, caminho firme e as palavras de André Gide se misturam a uma espécie de grito na minha cabeça: que escritor nunca quis conversar com o diabo?
Chego sem disfarçar, um sorriso falso na cara: Que nome devo chama-lo? Tem tantos. Ele me olha, parece ler pensamentos, mesmo quieto, ouço a sua voz: “mania boba dos humanos dar vários nomes à mesma coisa, um rio é água que corre, o mar é água que se levanta e todos os homens são filhos de Deus”.
Balancei a cabeça, optei pelo mais usual:
– Olá, senhor diabo!
Ele me olha com olhos brilhantes, os lábios cortados pelo frio e a boca de sede.
– Oi, como vai? Frio demais, não é mesmo?
– Ah sim, detesto. Saudades do sol.
– E eu, das labaredas.
– Mas existe inverno no inferno?
– O inferno é aqui.
– Entendi.
Silêncio. Não me chega assunto. Ele sorri. Anoto na mente os detalhes para escrever mais tarde:  o diabo não tem chifres, nem rabo, de perto não é vermelho, é branco, olhos azuis, um furo no queixo, bastante alto, embora encolhido por causa do frio. Ele pousa o cotovelo no tronco da árvore, num sorriso sem fim, como se soubesse que eu estava analisando a sua aparência:
– Vocês escritores, bah! Cada um me vê de um jeito diferente.
Tarde demais para recuos, prossigo atento aos detalhes:  O bigode fino, do tipo Dick Vigarista e a barba por fazer, a queda dos cabelos disfarçada num chapéu cinza das abas largas, enfiado até quase as grossas sobrancelhas. Tremia, fazendo balançar o casaco de pele de raposa. Um desassossego me passou pela cabeça, eu não creio no diabo, por que diabo então ficar dando conversa para ele? Tentei sair de perto, voltar para casa, mas existia uma expressão de inquietante curiosidade no olhar do diabo. Será que ele também está me analisando friamente?
Ele gira o dedo no ar, se faz sério:
– Viu o que eles estão fazendo? Depois, a culpa será minha.
Pensei responder, mas ele faz com as mãos gestos de armas, uma quase ordem para que eu me calasse. Obedeci, quieto e atento ao desabafo do diabo.
– O ruim para mim é que o tempo não passa, os ponteiros do relógio estão sempre marcando quinze para as nove e o som que escuto é o mesmo turbilhão de lamentos, a bomba a explodir dentro da minha cabeça não cessa…
– Será que é correto sentir pena do diabo? Falei sem pensar. Ele largou os ombros após o suspiro:
– Sim, eu criei a fome, a miséria, o ódio. Mas o homem aperfeiçoou todos os meus inventos.
Assenti com a cabeça.
– Tem um cigarro? – Me pediu, ameaçando tossir, a mão direita fechada se aproximando da boca. Cheiro de enxofre. –
– Parei de fumar, mas na divagação da escrita, tenho sempre por perto uma carteira de cigarros, daqueles que solta fumaça com menta ao apertar uma bolinha no filtro.
Os olhos do diabo se tornaram sedentos. Acendi o cigarro, dei duas tragadas e passei para ele.
– Não fique com pena de mim, não pense que sou um pobre diabo, eu sou o mal que caminha. Embora os humanos tenham feito de tudo para me acompanhar, eu prossigo sendo o maldito, o inimigo, o capeta.
Largou um suspiro, tragou o cigarro duas vezes seguidas. Reparei que seus olhos, de perto, possuem bordas amarelas. Baixou os olhos por instantes, mas logo se ergueu, numa voz de lamento:
– Eu escuto todas aquelas orações…
O dia nublado, os olhos do diabo também nublados e eu pensando no que se passaria pela cabeça da minha mãe, devota de Nossa Senhora Aparecida, se me visse ali, naquele dia frio, entre duas árvores, conversando e fumando um cigarro com o diabo.
Um pensamento me assomou: e se ele pedisse perdão? O diabo sorriu, armou no rosto o desdenho daqueles que ouvem os pensamentos:
– Perdão é para quem peca. Eu inventei o pecado!
Pensei dizer algum consolo, os fantasmas de André Gide e Otto Lara Resende me cercando num abraço. O diabo balançou a cabeça e me calei, sem me importar com a fumaça de frio que engoliu os dois fantasmas.
 –  O que eu não daria por um pão com manteiga, um pingado bem quente e um minuto de silêncio? Quando penso no homem que deseja ser imortal, chego a sorrir. Recentemente, um humano retardado disse que eu inventei os Beatles. Os Beatles? Pode algo tão estúpido e descabido? E Beethoven, fui eu também? Então, se assim for, sou Deus.
Uma ligeira comoção me assomou, ergui os braços e tentei tocá-lo nos ombros. Ele me olhou enfezado, jogou com a ponta do dedo indicador a bituca do cigarro longe e sua voz era outra, forte, determinada, quase um trovão:
– Não se apegue a mim. Aleister Crowley tentou e se deu mal.
Sorriu ligeiro, depois baforou nas mãos o frio em forma de um jato de fumaça.
– Ultimamente me sinto um tanto ultrapassado, como um velho aposentado, dando milhos aos pombos, sem perceber que os pombos aprenderam a voar para longe, tempos atrás. Não consigo pensar em outras maldades, sou como o compositor que já não consegue entender as cifras das canções.
– Mas essas desgraças que se vê por ai… – O diabo não me permitiu concluir.  –
– É tudo ideia dos homens, coisas que lhes ensinei enquanto tocava saxofone e aprenderam rapidinho, entenderam perfeitamente o meu sopro, muitas vezes desafinado e construíram uma orquestra tão perfeita que dispensa a batuta do maestro. Sou um pobre diabo, vivo de pequenas artimanhas, meu passatempo predileto atualmente é perturbar os poetas, chego perto e sugiro num sussurro: borboleta. E o poeta começa a pensar no casulo, na lagarta, na metamorfose e na cor das asas que dará à sua borboleta. Então dou um jeito de derrubar alguma coisa, faço o barulho de um inseto voando, desenho no ar uma conta a pagar, acendo o pavio da ira da vingança, o faço recordar do amargo pecado de outrem, daquele que não se consegue perdoar, lhe mostro o rosto distante de uma mulher, ou de um homem, lindos, perfeitos,  cuja conquista nunca ousou tentar e o poeta titubeia. E hora de apertar a buzina de um carro, algo assim, e o poeta coça a cabeça, se esquece da luz brilhante do início do poema e começa tudo de novo, a borboleta já não terá asas e o casulo será uma casa de portas trancadas a trinco do lado de fora. O poeta insiste, ele precisa escrever, a febre lhe escorre pela testa, então vou lá e assopro uma palavra sem graça, sem sentido: abajur. Então o poeta pensa numa mesa de lençol esticado, o beiral de uma cama, uma linda mulher, ou um lindo homem se aproximando…Novamente faço barulho, revivo o inseto voando num aterrador zumbido  e ele não pensa em mais nada, vai dormir aborrecido, certo de ter perdido algo que estava entre os dedos, os mesmos dedos que esmagaram a linda borboleta com uma certeira pancada de abajur.
Coço a cabeça, falo sem sentir:
– Hoje eu pensei algo assim… A lagarta saindo de um casulo, qual cor darei à borboleta, azul talvez, mas depois o celular tocou e esqueci tudo.
– O celular…Talvez seja a minha melhor invenção.
Meu rosto ameaçou um sorriso, ele se fez sério:
– Você é ingênuo, pensa que me vê, mas isso é coisa de escritor, vê o que ninguém mais enxerga, finge sentir dor, como disse aquele bardo português, mas na verdade, bem lá no fundo, não está vendo nada, sabe que não passo de um galho de árvore que o vento frio derrubou em meio a duas árvores frias.
E um sopro repentino e gelado envermelhou meu rosto. Esfreguei os olhos, girei os calcanhares e voltei para casa sem olhar para trás.
Um galho de árvore…
Quantos dias ainda teremos desses dias delirantes de frio?
Se eu acreditasse em alguma coisa, juraria que no último instante, pelos cantos dos olhos, vi um bodezinho campeiro correndo ladeira abaixo, assim que o vento gelado voltou a soprar.

Buraco de minhoca

Nessa manhã, quando acordei, a brisa fria me apanhou num repente. “Venha, abra a janela, observe lá fora, falta pouco para você completar quinze anos”. Esfreguei os olhos, tive um sono pesado, uma viagem ao futuro, quando todos ficaram trancados em casa, com medo da morte invisível  escondida lá fora. Um banho gelado, sabonete de coco, os cabelos que insistem cair, a hora do trabalho que chega depressa e preciso correr. Tomo o Café e me atrapalho ao vestir a camisa, as mangas voam, meu braço demora a encaixar. Minha mãe surge, sorrindo da minha falta de jeito, um beijo na testa e o mundo se mostra ao abrir a porta. É dia claro e a lembrança do sonho me faz estranhar tantas pessoas nas ruas, juntas no ponto de ônibus, ninguém usando máscaras, os abraços, o aperto de mãos, o beijo de um casal. Meus joelhos não doem como no sonho, não sinto medo da morte, o que sinto, diante daquele dia azul, sol aberto e vento gostoso,  é a mesma sede de tudo saber, a conhecida ansiedade de sempre.
O vento me abraça num atropelo gelado, “desculpe, eu preciso passar”, e se vai, rápido, até virar na esquina. Pisco os olhos, me convenço que o vento e o tempo são os mesmos: uma entidade intocável, imutável, muitas vezes cruel. Pedaços de vidros não são diamantes e as páginas do meu livro estão abertas, têm poucas tintas, não tenho nem quinze anos. O que vai acontecer é um prato sobre a mesa e a cabeça recheada de sonhos. Procuro alguém com quem conversar, mas a menina dos dentes de ferro mal sabe da minha existência, um sorriso de passagem, nada mais, desconhece o poema que escrevi em sua homenagem, no qual ocultei a palavra amor por não saber exatamente o que sentia. Meus amigos, apenas eles me entendem, mas quando conversamos, o assunto é outro, rapazes não fazem confidências. O trem atravessa a avenida e tudo para, menos a pressa da minha alucinação. Os trilhos rangem, os motoristas seguram firme o volante, ansiosos para o último vagão passar e dar lugar à liberdade. É isso o que os homens dos anos oitenta chamam de liberdade? Eu quero voar, mas meus pés gostam da terra vermelha, do cheiro da lenha cortada, da fumaça escapando do quintal, desde quando minha avó riscou a chama nas folhas secas varridas e o cheiro do mato ficou grudado em mim.  Em segundos um filme se passa na minha cabeça, eu não quero mais ir embora da minha cidade: o Fog londrino e a Estátua da Liberdade não mais me seduzem, eu quero é grudar minhas unhas no meu chão. O ônibus caminha calmo, masco o chiclete de menta na boca, mandíbula em movimento move o mento e sinto o prazer do hálito puro. A paisagem me alucina, observo as laterais: muros brancos demais, paredes lisas, portas com trancas, elas me atraem, a mão chega a tremer, mas sei que a tinta sairá em desalinho, um tanto incompreensível: quem conseguirá entender um rapaz latino americano sem dinheiro no banco enxergando o futuro? O meu pai está por ai, numa dessas ruas, mas já não sinto necessidade de encontrá-lo. Sumiu no beco tempos atrás, foi engolido pela tempestade. Meus amigos vão ao culto e eu prossigo oculto, duvidando de tudo, achando graça das roupas brancas, em contraste com as minhas coloridas, e sentindo imenso alívio quando dizem amém. É o final e só então consigo sorrir. Li um livro semana passada e fiquei impressionado, não tanto com a personagem principal, mas com as duas divindades que possuem intimidades com o tempo: o Chapeleiro e o Coelho Branco. Estou sempre atrasado e não sei exatamente o porquê? Queria ter o conhecimento do Chapeleiro, ele tem respostas para tudo, porque as espinhas no meu rosto causam a dor inesperada, tal e qual os pelos que de repente começaram a surgir. Eu raspo e a lâmina me corta, fico pálido, a olhar de lado, preso ao medo que algum adulto apareça e tome meu sangue como motivo de susto ou risada. O tempo é um senhor, disse o chapeleiro, mas Alice não acreditou, ela é jovem como eu e nós só temos sonhos, um mundo abaixo da toca da árvore, cujo portão de entrada está escrito em letras garrafais: proibida a entrada do tempo. E o ônibus parou afinal, desci carregando a rufada de palavras na cabeça, perguntas sem respostas, amanhã ainda é longe, eu só tenho quatorze anos. No fim do dia, ao me deitar, penso no sono de antes e o desassossego me abrange. Pego um pouco de Renato Russo, restos do Chico Buarque, misturo com o Biafra e saem os versos em desalinho, balançando na cabeça e aos poucos me acalantam: O que fazer de mim, se o sol nunca mais vai se pôr, se o meu sangue errou de veia, perdeu o caminho (na bagunça) do seu coração, me fazendo confundir a hora de ir, ir por onde ninguém for e o que restou foi essa vontade imensa de sentir o que eu não posso ter. E o sono chega de leve, enquadrado pela janela, trazendo um medo ligeiro de voltar ao futuro, embora eu saiba que por lá, muita gente me aguarda ansiosa.

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