Cenas do bar – Deus, o baseado e eu.

Meu nome é Vladimir de La Mancha e só tenho medo de dentista.
Recentemente, por causa do confinamento, descobri que solidão é um bicho maldito. Andei caçando coisas para fazer aqui no apê e até descobri cinco ou seis baseados antigos, enrolado num papel reciclável, guardados no vão do colchão.
O troço é da hora, extremamente relaxante e das asas leves como plumas. Mas fez bater uma pequena insônia, talvez fruto do medo da solidão. Ah, para com isso, eu só tenho medo de dentistas.
Onde deixei o vidro de rivotril?
Tinha um resto e eu precisava tomar. Ou será que já tinha tomado antes de deitar?
Fiquei buscando imagens, tentando dormir, pensei numa moça que vi usando máscara vermelha, passeando pela calçada sem se preocupar com os meus olhos de lince. Parece a Joana Prado, a Feiticeira, uma mulher linda do passado que usava máscara num programa de tevê.
Bons tempos.
Adormeci levemente e acordei num repente, um barulho de coisas se mexendo. Como a diarista não está vindo e eu sofro do mal da preguiça, o apartamento está uma bagunça, com restos de pizzas pelos cantos.
Tenho me alimentado mal, geralmente restos de pizza e vinho morno, amanhecido fora da geladeira.
O barulho prosseguiu e pensei na morte. Pensar positivo é sempre importante nessas horas: deve ser um rato.
Semana passada armei uma ratoeira bem perto da cama, gosto de ouvir quando dispara e o bicho dá aquele último grito de desespero.
Apurei os ouvidos e de longe veio a voz, que foi aumentando:
– Socorro, me tire daqui! Gritou o rato preso pelo rabo.
Levantei no susto e pensei sair correndo. Uma força sobrenatural me prendeu. Resolvi falar com o bicho:
– Porra, que merda é essa, você fala?
Ele me encarou como nunca um rato havia me encarado:
– Claro que falo, eu sou o criador.
– Oi? Como é?
E então surgiu a primeira intimidade:
– Me tire daqui, Vladimir.
– Você me conhece?
– Claro que conheço, você e todo mundo, já disse, eu sou o criador.
Ri com o canto dos olhos.
– O criador?…Tipo…Deus?
O rato balançou a cabeça num início de irritação:
– Tenho vários nomes. Mas é isso, eu sou Deus.
Deixei o ombro cair e busquei com os olhos o baseado ainda aceso no criado mudo.
– Ah, num fode, você é um rato.
– Vladimir, não quero dar explicações, me tire daqui!
– Uai, se você é Deus virado num rato, tem poder, então é só desvirar.
– Não consigo, a mágica do rato é pelo rabo e você armou essa porcaria dessa ratoeira que arregaçou exatamente o rabo.
Ah, será que ainda sobrou vinho? O rivotril secou?
Pensei um pouco, ele tinha os olhos bondosos e um jeito franco de me encarar. Na literatura, geralmente, ratos são bonzinhos. Preciso consultar aquele meu amigo.
– Rápido Vladimir, está doendo!
Balancei a cabeça, agachei e tirei o rabo do bicho da armadilha. Puft! Uma nuvem branca se formou após uma pequena explosão. Então o rato se transformou em um senhor bem velhinho, dos cabelos brancos esticados, os olhos meigos e usando óculos. Achei estranho, por que Deus usaria óculos? Ele pareceu ler o meu pensamento:
– Charme…
Não quis discutir, nem mesmo levantar suspeitas, coisas implicantes, como o fato de que os óculos estavam embaçados. Ele me encarou como um mendigo agradece uma moeda.
Devo confessar que ele pisca demais e nunca gostei de gente que pisca demais. O danado lê pensamentos:
– É um tique nervoso apenas, não ligue.
– Entendi…
– Bom, você fez uma boa ação e merece uma recompensa.
Estou pensando dar uma ressetada na raça humana e é bom você escolher um lugar porque vou dar uma regaçada geral e…
– Ah, esse vírus ai, foi coisa sua?
– O corona? Cara, você acredita na Globo? O vírus corona é coisa dos chineses. Comigo o negócio é mais embaixo, já mando um meteoro, um dilúvio, uma chuva de gafanhotos… Dessa vez estava pensando dar uma balançada no mar, criar um tsunami, virar tudo do avesso, inclusive aqui onde você mora, o Mato Grosso.
– Do sul.
– Oi?
– Não, nada. Bobagem…
– Mas já que você me salvou, posso te enviar para um lugar seguro.
Meu olhos brilharam.
– Posso levar alguém?
– Claro, claro, viver sozinho ninguém merece… Escolha ai cinco pessoas.
– É tipo uma ilha?
– Ilha? É, pode ser.
– Vai ter chope?
– Daremos um jeito.
– Bom, então eu quero levar a Jenifer Lopez, a Fernanda Paes Lemes, a Flávia Alessandra, a Jéssica Alba e a Sandy.
– Sandy?
– É…eu tenho um assunto mal resolvido com ela desde os anos noventa, sabe.
– Sei…eu sei, eu vejo tudo – e ergueu as lentes dos óculos fazendo um rosto sacana. E depois os olhos danaram a piscar. Acho que é nesse momento que ele lê os pensamentos e descobre segredos, aquelas coisas que a gente quer esconder para sempre.
Ele piscou cinco vezes seguidas.

Fiquei com um medo danado que ele se lembrasse de mim criança, quando eu matava as galinhas da vizinhança para fazer um penacho e imitar o índio do Village People. Eu não sabia que ele era gay, pensei e ele escutou, fez cara de enfezo, sem abrir a boca me chamou de homofóbico.

 – Maluquice essa sua ideia.

– Maluquice?

– Você quer mesmo levar cinco mulheres para uma ilha deserta? Tem ideia do inferno que elas vão transformar o lugar logo nos primeiros dias?

– Você acha?

– Cara, eu não acho, tenho certeza. Ah até hoje, quando me lembro do pobre Adão…E olha que ele estava só com uma.

– Eva né?

– Não, Eva veio depois. Adão estava com Lilith… cara, que inferno! Pobre Adão…

Fiz cara de compreensão, mesmo não sabendo nada sobre a tal Lilith. Sempre tive curiosidade de saber se Adão e Eva tinham umbigo. Cheguei a abrir a boca para perguntar, mas ele falou primeiro.

– Tédio é uma das minhas piores invenções. Sim, sim, eu também sinto tédio. A sorte que sou Deus e daí posso criar umas fugas. Hoje por exemplo, pensei, estou com vontade de ser um rato ladrão de restos de pizzas…

– Bom, o senhor…

– Não precisa me chamar de senhor, pode ser você…

– Tá…então o senhor, digo, você acha que eu devia levar homens também?

– Sim, pelo menos dois, para dar uma equilibrada sabe?

– Bom, tem aquele meu amigo escritor.

– Não, não…aquele não.

– Mas…

– Não gosto dele, muito metido a querer saber demais, sempre duvidando, perguntando coisas, qualquer motivozinho já escreve um texto me questionando….ele não.

– Ele não?

– Escolha outros dois.

– Eu gosto do Bruno e Marrone.

– Bruno sim, Marrone não.

– Ah?

– Bruno bebe, fica bêbado, é legal. Marrone é mudo e chato.

– Tá…Tô aqui pensando outro…

– Eu não tenho o dia todo…

Nesse momento me ocorreu uma ideia e olhei para o canto da casa, a velha bateria repleta de pó, as baquetas segurando a trava da janela. Sonho antigo que deu em nada, eu e meus amigos formamos uma banda, a “Junta do cabeçote” nome de duplo sentido, porque tal e qual o motor de um carro, as mulheres não nos entediam, também porque achamos o máximo tirar onda com a foto que seria da capa,  homens juntos e coçando os cabeçotes.

As mulheres odiaram, “ideia podre’ disseram, rogaram pragas e a banda não decolou de vez.

A pretensão era desbancar a banda RPM, fizemos até uma música “Morena quente”, em contraponto às Loiras geladas deles. Já no início descobrimos que não sabíamos tocar bem nenhum instrumento e muito menos cantar.

O sonho foi para o saco, com cabeçotes e tudo.

Deus piscou os olhos duas, três vezes…Hummm, recriar a Junta do cabeçote…Boa ideia!

E continuou pensando e piscando, apanhou o baseado ainda pela metade no canto da cama, deu duas tragadas longas e depois me encarou.

– Vou para casa pensar nessa sua ideia. O acordo do Paulo Ricardo com Lúcifer sempre me incomodou, preciso dar o troco. Volto quando tiver com tudo pronto.

Acordo do Paulo Ricardo com Lúcifer? Mas é claro, pensei, por isso o filho da puta nunca envelhece. 

Sorri meio sem jeito enquanto Deus dava mais uma tragada no baseado, chupando até o final sem queimar os dedos.

Resolvi aproveitar para uma última questão:

– Ah, uma coisa, o meu amigo escritor, sabe, era ele que escrevia as músicas…

– Ele escreve inspirado em mim e nem desconfia. É um chato…Tudo bem, pode levar ele e os outros três amigos.

– E as mulheres?

– Só a Fernanda Paes Leme e a Lidia Brondi.

– Eu nem pedi a Lidia Brondi.

– Mas pensou. E eu gosto mais dela, sempre recatada, certinha, afastada há quanto tempo? Nem eu sei. Está na hora dela dar umas sacudidas.

– E a ilha, posso saber onde é?

– Ilha? Ah, não vou mais acabar com o mundo.

– Não?

– Eu estava entediado, mas essa ideia de recriar a Junta do cabeçote foi demais, já estou até vendo as manchetes.

– Mas…Deus, é que nós não sabemos direito…

Ele piscou no mínimo dez vezes, vi os brilhos escaparem do seu olhar.

– Seremos um quinteto. Eu serei o guitarrista e vocal principal.Foi assim com aqueles rapazes de Liverpool …

Meu olhos não parava na cara. Liverpool, Beatles, o quinto Beatle era Deus? Ou será que ele era um deles?

– Me chamavam de Johnn…Daí Lúcifer mandou um dos seus capangas acabar com a brincadeira…

Fiquei pasmo, sem palavras.

– Mas e as meninas, elas serão parte da banda?

– Sim, claro, no começo backing vocal e bailarinas, depois eu penso em algo mais.

E nem falei mais nada, ele fez um gesto com os dedos, tipo despedida, se transformou numa mosca e voou até o vão da janela.  Bateu no vidro, escapou para o canto fechado, zumbiu desesperado, bateu as asas freneticamente até finalmente encontrar a saída e desapareceu no céu aberto.

– Danado, por isso ele usa óculos…

Achei o vidro do rivotril, bebi dezoito gotas e cai num sono absurdamente pesado.

Quem sabe amanhã Deus volta, quem sabe…

As duas calçadas

Quando olhei em torno de mim, o ruído de antes estava lá, despencando das paredes rachadas, carcomidas pelo tempo, assombrado pelo silêncio reinante, como se cumprisse um pacto para não despertar os fantasmas do hotel Gaspar.

Senti então o inesperado peso no corpo, a magia de um sortilégio, como se estivesse carregando minha casa nos ombros, feito um caramujo, passeando devagar pela calçada deserta, repleta de luzes e espinhos do tempo, pesada feito uma rocha apaixonante. 

Ah o vento, esse amigo inseparável que nunca dorme, assoprando na minha testa imagens do ontem, trazendo o tamborilar das gotas geladas que molhavam minha roupa, provocando a vontade de correr da chuva e me abrigar numa daquelas portas.

Já não existe a chuva e todas as portas estão fechadas.

A chave gira na fechadura do tempo – outro velho conhecido – ouço vozes, sinto passos enquanto  um som de berrante distante escapa de um facho de luz , desenhando o contraste das calçadas: de um lado os comerciantes turcos, do outro lado bares e prostíbulos,  a boca do lixo , frente a frente, se cumprimentado num tom de respeito, como se fossem parte de uma única célula da cidade que crescia.

O relógio gigante da loja da esquina rugia um tic tac incessante, mas agora parou de girar.

Uma vertigem, a brutal realidade atual, um ar de completo abandono percorrendo as paredes em volta de mim e o pensamento me cala de vez: se não fosse a guerra, não existiriam as calçadas e as minhas letras (talvez) contariam outros sonhos.

 Um carro avança apressado, saindo feito um raio do viaduto da Rua Antonio Maria Coelho. O motorista não sabe, antes, ali só existia o monte de grama grudado nos trilhos e meus olhos de menino estavam perto quando a prefeitura resolveu fazer um corredor na lateral do viaduto – uma luz viva na memória guarda o momento da inauguração – três homens usando terno e gravata fizeram comício, um deles exaltou o grande feito da engenharia, citou Pitágoras, falou do  arco do triunfo e explodiram os aplausos.

O prefeito surgiu logo depois, vindo pela calçada do lado dos turcos, usava bombacha, camisa de algodão, chapéu de abas largas, botas pretas do brilho intenso, em contraste com o sol queimando o seu rosto rosado e banhado de suor. Era um homem de poucas falas, ouviu num sorriso os discursos e disse no fim: “então está feito, vamos embora!” E voltou pelo outro lado da calçada, abarrotada de gente; os bêbados pararam o jogo de sinuca, as prostitutas abriram os braços deixando os seios quase escapando pelos vestidos coloridos, gritaram o nome do prefeito e ele respondeu com sorrisos e acenos de chapéu. O repórter calvo correu atrás, falando ao microfone numa pressa de quem tem fome e foram desaparecendo diante dos meus olhos, até se perderem detrás do prédio da loja consumida pelo incêndio tempos antes.

Olhos no céu de hoje. A porta do primeiro bar ainda é a mesma na qual vi de perto meu primeiro morto, caído três passos adiante, fedia cachaça e da barriga escapava um fio de sangue, os olhos abertos, o bigode áspero espumando a angústia do fim. O repórter calvo estava lá, “direto da boca do lixo, um morto caído na calçada, esfaqueado numa briga de bar”, disse num tom de voz arrepiante.

Se não fosse a guerra, não existiriam as calçadas, as rádios, a cidade.

Eu não ligava para a chuva, gostava de andar com a camisa encharcada. Quando o patrão precisava de troco, entrava na boca do lixo como quem entrava nas lojas, as prostitutas sempre tinham dinheiro miúdo, os bêbados também.

As pétalas das flores ainda não tinham se aberto para mim e enxergava as prostitutas como se fossem as donas dos bares, o sorriso sempre estampado no rosto abarrotado de ruge e batom.

Elas vieram com a guerra…

A música que eu gostava falava de bêbados trajando luto, mas os meus bêbados vestiam camisa em listrado, usavam botas, chapéus de couro ou de palha e bebiam pinga como um perdido no deserto. Ainda agora ouço o repicar das bolas se chocando na mesa de sinuca. Outra música falava de uma nuvem passageira e agora eu sei o tanto que ela é ligeira.

Paro na esquina das ruas que antes ferviam e ninguém mais escuta o som do berrante, quase ninguém sabe da guerra, não existem mais as vozes das calçadas, nem mesmo os risos, o cheiro de pinga de um lado, do couro de sapato no outro. Restam as paredes caindo e o amedrontoso silêncio. Acaricio as paredes dos quartos da casa que carrego nas costas, ela permanecerá ali, desabando enquanto as gotas da chuva – lágrimas turvas e quentes – despencam do barranco do viaduto, em busca do rio escondido abaixo do asfalto na esquina, ao som distante de um lamentoso berrante. 

O sorriso da orquídea

Eleanor imaginou que talvez somente ela tivesse reparado a mudança; as cores das flores do jardim estavam diferentes, o verde caído, o brilho fosco nas margaridas, a rosa vermelha transformada em cinza e o jasmim com as pétalas abertas num branco sem vida.

Carlos dizia enxergar o sorriso das flores. Num passeio, entrou na mata à procura de tesouros e de lá retornou trazendo um pedaço de tronco de árvore com um filete de rama verde escapando entre as frestas da madeira.

Eleanor sorriu surpresa, ele tratou de pôr fim ao espanto: “é uma orquídea, deste tronco logo nascerá uma das mais belas flores do universo”, disse enquanto repousava o tronco da árvore no seu colo. Naquele instante, dos olhos de Carlos escapou um brilho intenso transformado numa lágrima incontida de canto, enxugada às pressas nas mãos trêmulas de emoção.

Eles não sabiam, aquela lágrima era sinal de adeus. “Um dia, me encontre numa flor”, foram as últimas palavras de Carlos.

Para matar o luto, Eleanor coloriu o quintal da casa com flores diversas, mas nenhuma conseguia resplandecer brilho suficiente para suportar tamanha dor.

Do tronco que guardava a orquídea – cuidadosamente preso a um arame na parede da varanda – brotou uma flor magnífica, de três pétalas marrons e no centro a figura de um macaco. Olhando atentamente, a orquídea parecia lhe sorrir. Era espantosa e ao mesmo tempo cativante. As lentes dos óculos estão novamente embaçadas, pensou. Mas após esfregá-las com todo cuidado, e lançar o rosto até junto à planta, o macaco permanecia lá, mostrando o seu indefectível sorriso.

O passar dos dias, perdurando na mente a amarga angústia, transformou o rosto de Carlos na mesma feição dolorida de Rimbaud. “Me encontre numa flor”, a frase incessante assoprada pelo vento a fez recordar um livro antigo que falava sobre o sorriso das flores após a tempestade. Procurou-o até encontrar.

Antes de enlouquecer, porque começou a falar com a orquídea como se fosse Carlos, resolveu mudar a planta de lugar, num galho do pé de magnólia, pouco distante da janela do quarto de dormir.

No apagar das luzes, entre o cochilo preso nas pálpebras cansadas, restava o brilho fraco do vidro da janela, um último olhar de soslaio. E lá fora, o macaco prosseguia sorrindo, apontado para ela suas pétalas marrons, como quem pede um abraço.

De repente a luz do sol invadindo o quarto, outro dia, o sono pesado que a fez desabar pelos lençóis da cama pouco antes. O levantar trôpego, as mãos tateando o nada à procura dos óculos, a garganta seca pela estiagem, ardendo no gole do copo d’água que deixou pela metade, atiçada pelo bater de asas dos beija-flores na varanda da vizinha. Por que os beija-flores de repente só se vestem de cinza? 

Na brisa lá de fora sentiu o cheiro das plantas, o mesmo de sempre, mas as cores das flores estavam diferentes.  O céu cinza sem nuvens refletia a estiagem, um resto de mata ardente – talvez seja isso, imaginou – formando rugas acima dos olhos, a mão direita tampando o sol. As pessoas cruzaram a praça num ritmo acelerado, sem olhar para os lados. Um tanto acabrunhada, Eleanor ergueu o rosto para o alto, fumando o vento, ajeitando o aro dos óculos no nariz enquanto tentava prender a presilha nos cabelos rebeldes. Apanhou uma flor do canteiro, ainda ontem era uma reluzente petúnia azul – suspirou – a mesma cor que sempre imaginou ser do mar, mas agora estava cinza feito o céu. A antiga vontade de conhecer o mar havia deixado num canto, sem Carlos o mar não tinha razão; era imenso e azul, às vezes verde, trazia ondas enormes que desabavam na praia, mas nada sabia sobre flores sorrindo. Acelerou os passos, mordeu os lábios para não dizer nada, alguém haveria de perceber e também exclamar, afinal, flores não mudam de cor. No ponto de ônibus, as pessoas, como se combinado, trajavam roupas opacas, os bancos do ônibus também estavam diferentes, acinzentados, não existia mais o amarelo de ontem, a camisa do motorista, antes de um azul claro vistoso, agora transformada numa tristeza bege. Um olhar em volta, novo assombro, os ipês só deram flores marrons e algumas cinzas.  Que estranho ninguém perceber, pensou, fazendo um olhar franzido. Limpou os óculos com tecido de lã num leve passar dos dedos, ajeitou o corpo rapidamente e retirou da bolsa um livro da George Sand, costume antigo, ler no ônibus, em pé, com uma das mãos segurando o ferro de proteção e a outra equilibrando o livro aberto. O mundo em volta se apagava e o som que ouvia era do vento assoprando um vasto campo florido. Eleanor era uma jovem nascida com tempo para tudo, até mesmo para observar detalhes, as pequenas mudanças, mas não reparou que a literatura francesa estava em desuso e somente ela naquele ônibus lotado sabia porque George Sand usava calça comprida e fumava charutos em público. Um sacolejo no asfalto ruim, a volta à realidade momentânea, o olhar em volta, pessoas vestidas de cinza, como pardais sem plumas, traduzindo a certeza: ninguém por perto conhecia George Sand. Vinte e sete páginas até o ponto final e a história vagando na sua mente.

As duas árvores que ornavam a frente da empresa a receberam num abraço de frondes cinzentos. Na entrada, o quadro de Van Gogh se mostrou apagado, repleto de girassóis mortos. Segurou firme o cartão de ponto, antes amarelo e agora bege feito um pano de chão. Ao passar pelo espelho, imaginou ter se enganado com o vestido, não era daquela cor, embora o corte fosse muito parecido. O rapaz musculoso da copiadora passou por ela esparramando pelo ar um perfume azedo que embaçou de vez as lentes dos seus óculos. Os olhos negros de agora, ontem eram castanhos – pensou – e logo teve pressa, ajeitou o corpo no vestido e arrumou a presilha na cabeça, a velha tendência a fugir de situações embaraçosas. Seria uma má sina – suspirou – ter os cabelos ruivos e os olhos azuis se os cabelos rebeldes viviam brigando com a presilha e os olhos bonitos se escondiam detrás das lentes dos óculos.

O dia passou depressa. No retorno, as luzes da cidade estavam opacas e um vento repentino trazia o cheiro de chuva. De novo o livro numa das mãos, a outra mão segurando o ferro da sustentação, um breve sorriso abraçando a imagem no pensamento: George Sand enxergava o sorriso das flores nos campos encharcados enquanto Chopin tocava piano após a tempestade.

Novamente em casa, se deparou com as paredes tomadas de uma inesperada cor de avelã. Se deteve num olhar sob a paisagem escura, em volta tudo coisa gasta. Demorou mais que o habitual para encaixar a chave na fechadura, assombrada pelas flores do jardim, envoltas numa cor de pólvora. Tateou a parede até encontrar a tomada da luz, mas a escuridão permaneceu em volta até limpar os óculos, a quietude quebrada por pequenos ruídos, a gaveta se fechando levemente na cozinha, a porta da geladeira se abrindo, a fumaça do cigarro desenhando um círculo marrom e, num costumeiro arrepio, sentiu o medo kafkiano de se transformar numa barata. Ao menos as baratas podem voar e desconhecem as cores das flores – pensou em meio a um sorriso tossido.

No fim daquela noite caiu uma chuva fininha, que foi aumentando até se tornar temporal e Eleanor enxergou quase nada, apenas a janela baça segurando os pingos fortes que lhe batiam num tamborilar nervoso.

No clarão do relâmpago, lá fora, a flor com cara de macaco sorria para ela.

Conforme a chuva aumentava e envolvia a janela no seu manto de águas incessantes, desde o pé de magnólia a orquídea ganhava vida, vindo acelerada até a parede do quarto, abraçando completamente o vidro da janela.

Já não tinha a cara de macaco, era rosto de gente, primeiro Rimbaud, depois Carlos, encharcado pelos pingos da chuva, as pétalas balançando de um lado para o outro, pedindo para entrar.

Eleanor enxugou a lágrima fina no canto dos olhos, sorriu timidamente, é apenas o sorriso da orquídea, virou-se para o outro lado antes que a vista embaçasse de vez e desabou num sono alentador.

Sonhou sonhos bons, porque nos sonhos não existem lágrimas, não é preciso usar óculos embaçados, por lá as flores são tantas, não mudam de cor, nada se esfuma, embora somente a orquídea com cara de macaco conseguia sorrir para ela.

No canto do criado-mudo jaziam os óculos das lentes embaçadas, calmos e solenes, aguardando o fim do sonho e o retorno das flores cinzas no dia seguinte. 

As paredes da redoma

Às vezes, nesses tempos difíceis, ecoam na minha mente algumas palavras casadas – a tortura engolindo a arte, meu pescoço arde, o nó, o aperto. Acorda, a corda, pássaro preto. – Então desce do céu um zumbido de abelha, o barulho da cidade, tudo o mais, e as letras da crônica começam a dançar. Sossego meus passos diante do enorme edifício. Elevador de vidro, vista panorâmica, o meu destino é o vigésimo andar.  O copo de garapa só faz aumentar a minha sede, sede de água, um litro gelado, beber no gargalo, num gole só. Poeta bom é aquele que sofre e eu só sinto medo de cachorro, de dentista, de fardas e bandeiras, do homem fazendo gestos de armas com as mãos no lado direito da calçada, daqueles que não entenderam o sagrado significado da cruz, da violenta ignorância que mata uma criança em nome da paz. O elevador está no sétimo andar e não há ninguém ao meu lado. Sinto conforto, viajar sozinho não sufocará o meu grito. Como se fosse provocação, o elevador desce, a porta se abre e, no mesmo instante, ao meu lado se forma um grupo de nove pessoas.  Poeta bom é aquele que sofre, penso novamente e convoco a companhia de Belchior. Ele me encara, sorri. “medo, medo, medo” ele diz e de mim escapam palavras no pensamento, daquelas casadas, de papel passado – perto de mim há um teclado, mudo por enquanto, no tempo que observo as estrelas e espero a frase rimar. Perto de mim há uma garrafa de vinho, do álcool que não posso beber, reserva da vida que vejo passar. Perto de mim há vontades, sentimentos diversos, que exijo calar. Perto de mim há verdades de ninho e não consigo alcançar, perto de mim há um cálice… Eu venho, eu vinho. – Achei nos meus arquivos, será que escrevi isso? Sofro quando não descubro. O elevador chega, entro e me encaixo no aperto. Quem será que imaginou um elevador feito de vidros?  A senhora tímida, solitária, carrega uma bolsa enorme apertando os seios. Será o mesmo medo que o meu? Dois homens conversam sobre o sono, um não consegue dormir, o outro dorme demais. Olhei para eles num rosto carregado de respostas, domino o assunto, zolpidem é a solução, mas fiquei calado, o rosto ansioso refletido na parede de espelhos. A capa da morte é feita de vidro. Medo, medo, medo, cantamos, Belchior e eu. O casal troca olhares cúmplices, ele me cumprimenta num leve aceno de cabeça, ela usa cabelos coque e olha fixamente o piso do elevador. O brilho do relógio nos pulsos do senhor reflete as paredes da redoma e o abismo é ali também. Quem é que usa relógio de pulso nos tempos atuais? E se a luz apagar? Busco um desvio de pensamento, uma fraqueza boba – pensar forte faz acontecer. Duas pessoas descem no terceiro andar, mas outras duas entram no elevador. Preciso de algum assunto de asas – penso – e como se fosse combinado, um inseto pousa no lado de fora do vidro, se debatendo diante da visão falsa da liberdade. Bicho estúpido, basta virar para o lado e voar para longe, depois apanhar carona no vento até alcançar aquelas estranhas nuvens no céu. Belchior se apóia nos meus ombros, inverte a situação, ele sempre foi o meu apoio. O homem no canto se veste de forma elegante, usa gravata, o cabelo grudado de brilhantina, tem o rosto seguro, não se importa com a possibilidade do vidro arrebentar de repente e estragar o seu penteado.  Belchior resolve assoprar no meu ouvido uma canção: “meu coração cuidado é frágil, meu coração é como vidro”… E sorri enquanto me afasto até o canto. A fragilidade do vidro é como uma folha de livro ao vento.  O inseto já não insiste, quieto, absorto na languidez dos derrotados. Entorto os olhos, dou de frente com outro senhor, vestido de forma simples, calça jeans, camisa de algodão, o sapato de couro marrom, deve ter a minha idade, sinto uma alegria efêmera, como quem se alegra ao ver um companheiro de batalhas – éramos jovens nos anos oitenta – penso num sorriso e ele parece captar, num sorriso de retorno; conto na mente cada ruga do seu olhar e fico imaginando que pinta os cabelos, porque as bolsas inchadas abaixo dos olhos não combinam com o brilho negro dos fios esvoaçantes na cabeça murcha. Duas pessoas descem no quinto andar, a religiosa faz o sinal da cruz, o cabelo da moça da borboleta tatuada no braço deixa um rastro de lavanda. Todos descem quase ao mesmo tempo, restando Belchior e eu nos cinco ou seis andares que faltam.
Poeta bom é aquele que sofre – Na redoma de vidro, o poeta sofrido, o inseto, o dilacerante zumbido, meus medos, Belchior, no sopro bemol, engolindo o sustenido –
De repente, num bafejo do vento, o inseto encontra a liberdade, o vôo torto para longe, o final da angústia. Fecho os olhos, imagino a alegria das asas rumando em busca das nuvens ligeiras em formas de pombas no céu. Vigésimo andar, luz verde, alívio, vida.
Na volta, optarei pelas escadas, sairei à rua apressado, o medo jogado fora e arrancando do peito a dor do poeta que não sou. E que tudo mais vá para o céu, como já disse o poeta Belchior.

Meus olhos são verdes enquanto sonho

Saudade é um punhado de areia nos olhos.
Penso no passado enquanto a pressa entra pelos vãos do vidro do carro. Perto de casa existe um campinho de futebol, observei de soslaio, dias atrás, naquele breve momento que a febre da pressa me abandonou.
E vi um menino correndo num campo de terra atrás de uma bola velha. Areia nos olhos…
Ah, minha mãe, me conte histórias, de quem era aquela carroça atravessando a Avenida Contorno, o caminho cheirando estrume de cavalo, me levando de passageiro?
Hoje apenas sonho com aquelas manhãs fagueiras, reencontro o mesmo céu bordado de estrelas e nele voam as asas ligeiras das borboletas azuis que versou o poeta Cassemiro de Abreu.
Eu não deveria sentir saudades daqueles tempos rudes, mas sinto. E sonho às vezes.
Meus filhos eram pequenos quando acelerei a vontade de vê-los crescidos. Agora que cresceram, não tenho como fazer o tempo voltar e sinto saudades de quando suas mãos pequenas abraçavam o meu rosto. As folhas das árvores caíram e os outonos se foram, apressados como eu. Uso um relógio de pulso dos ponteiros grandes parados, mas os segundos atropelam os pensamentos.
Meus olhos mudavam de cor quando eu era menino; pela manhã eram castanhos, quando o sol se punha se transformavam num quase verde e assim prosseguiam durante o sonho. Ninguém me disse isso, ninguém percebeu, mas eu imaginava assim.
O acelerador é mais atraente que o freio.
Agora, sentado diante do computador, revejo passo a passo como foi meu dia até aqui: eu tinha tempo, mesmo assim, atravessei o sinal fechado.  Na outra esquina, um pedinte deixou pendurado no retrovisor um pacote de balas. Eu tinha um real jogado no console e mesmo assim recusei as balas, sequer olhei nos olhos do pedinte. Acelerei, eu tinha tempo, ainda assim, não cumprimentei o frentista, nem sei a cor dos seus olhos, que talvez mudem de cor ao cair da noite, quem sabe?
Acelerei novamente enquanto a chuva caía formando a enxurrada que não levou embora a minha pressa.
Nuvens invadiram meu pensamento: faltou tempo para visitar aquele amigo antes dele morrer. Deixar para depois foi mais confortável – suspiro. Aos poucos, vou me esquecendo do seu rosto e o som da sua risada, restando a nuvem opaca do último cigarro que fumamos, turvando o meu olhar. Na pressa, o cinzeiro ficou cheio e o cigarro acabou.
E a nuvem prosseguiu confrontando minha ânsia; a minha tia, que ajudou a me criar, falta tempo para ir visitá-la.
Eu vou tia Eurinda, assim que essa pressa acabar.
Os minutos são pura abstração, por que usei de reticências quando necessitava apenas de um ponto final?
Borges escreveu que na fúria da pressa Demócrito de Abdera arrancou os olhos para não se distrair e poder pensar. Demócrito me causa anseios e medos: que será de um homem com tempo para pensar, mas sem os olhos de ver?
Meus pés prosseguem ligeiros, embora as portas que hoje atravesso não façam tanto ruídos e o verde já não invade meus olhos nos fins de noite.
Venha Dona pressa, chegue perto, tenho algumas coisas para lhe dizer: é preciso perceber o vôo colorido da borboleta, antes que morram as lagartas. E se as abelhas não mais existirem quando enfim a pressa acabar e não restar um único favo do mel? É preciso ver a alvorada, da praia ou da beira do rio, enquanto existe o sol.
Vá embora Dona pressa, que meus olhos já não são verdes quando o dia termina e um deles já se zangou com o tempo.
Ah minha mãe, me conte histórias, daquelas de quando as fontes brotavam na terra, antes que tudo se transforme em areia e essa mesma areia, um punhado dela, se esparrame em nossos olhos no tempo que nos resta, se transformando em rios de saudades.
Os deuses dormem sem pressa, sabem que o fim dos tempos ainda demora e a pressa dos homens nada mais é que a escravidão do próprio homem.
E é por isso que eu sonho. No sonho não tenho pressa e lá, sem que ninguém perceba, meus olhos continuam verdes.

Diante do espelho

Tenho costumes antigos; uma mania boba aqui, outra acolá, como aquela de coçar o cocuruto feito um macaco quando meu dou de frente com algo intrigante.
Também carrego o costume besta de rir sozinho, absorto pela imagem de cenas antigas, piadas mortas ou até mesmo por recordações de atitudes pueris.
Se não bastasse, faço contas com os dedos – pobres dos meus dedos – às vezes os transformo em jogadores de futebol chutando uma bola imaginária e até comemorando o gol.
Eu grito quando a dor nem é tão grande – qualquer aperto, já imagino a morte – sinto medo do escuro e roubo revistas nos consultórios.
Tenho uma vasta coleção.
Mas nada se compara à estranha mania de conversar com o espelho quando o dia recém amanheceu e os sonhos ainda caminham pela minha mente.
Nu, diante do espelho, descarrego profundezas.
É quando o verbo, pronome, metáfora e ênclise se misturam.  O banho quente primeiro, o escovar dos dentes depois, já com o banheiro tomado pela nuvem de vapor embaçando o espelho, logo após a briga corriqueira com a pasta de dentes que custou a sair do tubo.
Então ergo a cabeça e atrás do vidro embaçado, lá estou eu.
O outro eu.
Ele me encara, passa por nossas cabeças um filme completo do dia anterior, repleto de anotações de alguma coisa que eu podia ter feito diferente.
Sempre alguma coisa podia ter sido feita de outra forma.
Eu te conheço de algum lugar, pergunto ao espelho.
Ácido e ligeiramente torto, ele me responde: “velho, não percebe um filete de sangue nas gengivas?”
Estico as bolsinhas abaixo dos olhos ainda murchos de sono.
Detesto essas bolsinhas, elas me envelhecem de um tanto…
Rio um riso besta ao roçar com o dedo o pomo de Adão e a imagem no espelho faz o mesmo.
Depois se ergue, sorri, faz um sinal com a sobrancelha, como quem quer mostrar as rugas empurradas pelos vagões do tempo.
A bolsinha é pior – respondo – e sorrimos da própria desdita.
Talvez as rugas e as bolsinhas não sejam percebíveis.
Ele parece ler meu pensamento, balança a cabeça, “desde quando você se incomoda com o que os outros pensam a seu respeito?”
Sinceridade demais incomoda.
Faço com os ombros gestos de não estou nem aí.
Porquê escutar um sujeito que tem o coração do lado direito do peito? Chego mais perto sem me incomodar com o sorriso quase cínico.
Não é estranho? Cicatrizes mudam de lugar, mas a pintinha preta no canto da testa é sempre a mesma.
Para escapar do espanto, desenho no espelho um sol irregular, um quadrado torto e dos raios trêmulos.
Lembra quando a gente tinha cabelos? Era tão bom, afirmo, mas ele discorda: “dava muito trabalho, passávamos horas por aqui e no primeiro bafejar do vento desmontava-se tudo o que fora feito com tanto esmero.”
Esboçamos um sorriso contristado, repleto de cumplicidade.
Depois desabafo: é hipocrisia afirmar não se incomodar com o pensamento alheio.
O assunto morre, voltamos a sonhar, somos como os tais navegantes esquecidos numa balsa.
Onde você escondeu aquele menino que jogava bola? Qual aquela frase no túmulo do Salvador Allende? Onde foi enterrado o professor que você queria ser quando crescer?
Coço o cocuruto, vitupero, imagem estúpida, eu nunca quis ser professor. Ou será?…
Um finíssimo véu de gotas desce pelo canto da moldura, derrama a pressa feito lágrima e se desmancha entre os vãos da madeira.
De novo ele me encara, ausente de severidade, a cabeça quase deitada no ombro.
Tento escapar das rugas que novamente contemplo.
Em vão.
Eu queria ser poeta, desses bons de voar, só para encaixar, numa única frase, os meus olhos vermelhos dos tempos passados com a alegria de viver.
Loucos são os outros, penso enquanto visto a calça e depois abotôo a camisa.
Despeço-me num breve aceno.
“Tenha um bom dia, não se esqueça de fechar a porta, faz frio aqui sem você.” Não respondo, ele prossegue: “ conte-me tudo amanhã, quando a gente se encontrar novamente”, mas não me  atrevo a olhar de volta.  A brisa lá fora me convida a ser o homem liberto de Paulo Mendes Campos, e lá vou eu, abraçando o dia, preso a um pensamento constante que me faz coçar o cocuruto: preciso urgentemente acabar com as malditas bolsinhas abaixo dos olhos.

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