O diabo embaixo da árvore num dia frio.

Machado de Assis, o pilar da literatura nacional, disse: “ Há um meio certo de começar a crônica por uma trivialidade. É dizer: Que calor! Que desenfreado calor! “
Mas acontece que estamos no inverno e faz um frio dos diabos lá fora. Sempre achei essa frase descabida: um ser do inferno como o diabo, não deve gostar do frio.
O sopro louco dos ventos frios, se tem algo de bom, é aguçar a imaginação.
Otto Lara Resende, certa vez escreveu sobre o alívio de nunca ter sido apresentado ao diabo: “é que, assim como André Gide, depois de uma boa conversa, sofro a tentação de entender as razões do adversário”.  Desconfio que também sofro desse mal.
Em tempos de frio, os olhos embaçados pelo nevoeiro, todos os seres são gatos pardos. Está tudo tão certo e calmo, o casaco, um copo de chocolate, a quentura do meu quarto. Mas alguma coisa me chama até a janela e consigo ver: na esquina, duas árvores em meio à neblina, entre elas, caída ao chão, uma figura de traços humanos tremendo de frio. Eu devia voltar para debaixo das cobertas, ainda é muito cedo, o sábado mal começou, mas não existe sujeito mais curioso que escritor. Desço a escada, caminho firme e as palavras de André Gide se misturam a uma espécie de grito na minha cabeça: que escritor nunca quis conversar com o diabo?
Chego sem disfarçar, um sorriso falso na cara: Que nome devo chama-lo? Tem tantos. Ele me olha, parece ler pensamentos, mesmo quieto, ouço a sua voz: “mania boba dos humanos dar vários nomes à mesma coisa, um rio é água que corre, o mar é água que se levanta e todos os homens são filhos de Deus”.
Balancei a cabeça, optei pelo mais usual:
– Olá, senhor diabo!
Ele me olha com olhos brilhantes, os lábios cortados pelo frio e a boca de sede.
– Oi, como vai? Frio demais, não é mesmo?
– Ah sim, detesto. Saudades do sol.
– E eu, das labaredas.
– Mas existe inverno no inferno?
– O inferno é aqui.
– Entendi.
Silêncio. Não me chega assunto. Ele sorri. Anoto na mente os detalhes para escrever mais tarde:  o diabo não tem chifres, nem rabo, de perto não é vermelho, é branco, olhos azuis, um furo no queixo, bastante alto, embora encolhido por causa do frio. Ele pousa o cotovelo no tronco da árvore, num sorriso sem fim, como se soubesse que eu estava analisando a sua aparência:
– Vocês escritores, bah! Cada um me vê de um jeito diferente.
Tarde demais para recuos, prossigo atento aos detalhes:  O bigode fino, do tipo Dick Vigarista e a barba por fazer, a queda dos cabelos disfarçada num chapéu cinza das abas largas, enfiado até quase as grossas sobrancelhas. Tremia, fazendo balançar o casaco de pele de raposa. Um desassossego me passou pela cabeça, eu não creio no diabo, por que diabo então ficar dando conversa para ele? Tentei sair de perto, voltar para casa, mas existia uma expressão de inquietante curiosidade no olhar do diabo. Será que ele também está me analisando friamente?
Ele gira o dedo no ar, se faz sério:
– Viu o que eles estão fazendo? Depois, a culpa será minha.
Pensei responder, mas ele faz com as mãos gestos de armas, uma quase ordem para que eu me calasse. Obedeci, quieto e atento ao desabafo do diabo.
– O ruim para mim é que o tempo não passa, os ponteiros do relógio estão sempre marcando quinze para as nove e o som que escuto é o mesmo turbilhão de lamentos, a bomba a explodir dentro da minha cabeça não cessa…
– Será que é correto sentir pena do diabo? Falei sem pensar. Ele largou os ombros após o suspiro:
– Sim, eu criei a fome, a miséria, o ódio. Mas o homem aperfeiçoou todos os meus inventos.
Assenti com a cabeça.
– Tem um cigarro? – Me pediu, ameaçando tossir, a mão direita fechada se aproximando da boca. Cheiro de enxofre. –
– Parei de fumar, mas na divagação da escrita, tenho sempre por perto uma carteira de cigarros, daqueles que solta fumaça com menta ao apertar uma bolinha no filtro.
Os olhos do diabo se tornaram sedentos. Acendi o cigarro, dei duas tragadas e passei para ele.
– Não fique com pena de mim, não pense que sou um pobre diabo, eu sou o mal que caminha. Embora os humanos tenham feito de tudo para me acompanhar, eu prossigo sendo o maldito, o inimigo, o capeta.
Largou um suspiro, tragou o cigarro duas vezes seguidas. Reparei que seus olhos, de perto, possuem bordas amarelas. Baixou os olhos por instantes, mas logo se ergueu, numa voz de lamento:
– Eu escuto todas aquelas orações…
O dia nublado, os olhos do diabo também nublados e eu pensando no que se passaria pela cabeça da minha mãe, devota de Nossa Senhora Aparecida, se me visse ali, naquele dia frio, entre duas árvores, conversando e fumando um cigarro com o diabo.
Um pensamento me assomou: e se ele pedisse perdão? O diabo sorriu, armou no rosto o desdenho daqueles que ouvem os pensamentos:
– Perdão é para quem peca. Eu inventei o pecado!
Pensei dizer algum consolo, os fantasmas de André Gide e Otto Lara Resende me cercando num abraço. O diabo balançou a cabeça e me calei, sem me importar com a fumaça de frio que engoliu os dois fantasmas.
 –  O que eu não daria por um pão com manteiga, um pingado bem quente e um minuto de silêncio? Quando penso no homem que deseja ser imortal, chego a sorrir. Recentemente, um humano retardado disse que eu inventei os Beatles. Os Beatles? Pode algo tão estúpido e descabido? E Beethoven, fui eu também? Então, se assim for, sou Deus.
Uma ligeira comoção me assomou, ergui os braços e tentei tocá-lo nos ombros. Ele me olhou enfezado, jogou com a ponta do dedo indicador a bituca do cigarro longe e sua voz era outra, forte, determinada, quase um trovão:
– Não se apegue a mim. Aleister Crowley tentou e se deu mal.
Sorriu ligeiro, depois baforou nas mãos o frio em forma de um jato de fumaça.
– Ultimamente me sinto um tanto ultrapassado, como um velho aposentado, dando milhos aos pombos, sem perceber que os pombos aprenderam a voar para longe, tempos atrás. Não consigo pensar em outras maldades, sou como o compositor que já não consegue entender as cifras das canções.
– Mas essas desgraças que se vê por ai… – O diabo não me permitiu concluir.  –
– É tudo ideia dos homens, coisas que lhes ensinei enquanto tocava saxofone e aprenderam rapidinho, entenderam perfeitamente o meu sopro, muitas vezes desafinado e construíram uma orquestra tão perfeita que dispensa a batuta do maestro. Sou um pobre diabo, vivo de pequenas artimanhas, meu passatempo predileto atualmente é perturbar os poetas, chego perto e sugiro num sussurro: borboleta. E o poeta começa a pensar no casulo, na lagarta, na metamorfose e na cor das asas que dará à sua borboleta. Então dou um jeito de derrubar alguma coisa, faço o barulho de um inseto voando, desenho no ar uma conta a pagar, acendo o pavio da ira da vingança, o faço recordar do amargo pecado de outrem, daquele que não se consegue perdoar, lhe mostro o rosto distante de uma mulher, ou de um homem, lindos, perfeitos,  cuja conquista nunca ousou tentar e o poeta titubeia. E hora de apertar a buzina de um carro, algo assim, e o poeta coça a cabeça, se esquece da luz brilhante do início do poema e começa tudo de novo, a borboleta já não terá asas e o casulo será uma casa de portas trancadas a trinco do lado de fora. O poeta insiste, ele precisa escrever, a febre lhe escorre pela testa, então vou lá e assopro uma palavra sem graça, sem sentido: abajur. Então o poeta pensa numa mesa de lençol esticado, o beiral de uma cama, uma linda mulher, ou um lindo homem se aproximando…Novamente faço barulho, revivo o inseto voando num aterrador zumbido  e ele não pensa em mais nada, vai dormir aborrecido, certo de ter perdido algo que estava entre os dedos, os mesmos dedos que esmagaram a linda borboleta com uma certeira pancada de abajur.
Coço a cabeça, falo sem sentir:
– Hoje eu pensei algo assim… A lagarta saindo de um casulo, qual cor darei à borboleta, azul talvez, mas depois o celular tocou e esqueci tudo.
– O celular…Talvez seja a minha melhor invenção.
Meu rosto ameaçou um sorriso, ele se fez sério:
– Você é ingênuo, pensa que me vê, mas isso é coisa de escritor, vê o que ninguém mais enxerga, finge sentir dor, como disse aquele bardo português, mas na verdade, bem lá no fundo, não está vendo nada, sabe que não passo de um galho de árvore que o vento frio derrubou em meio a duas árvores frias.
E um sopro repentino e gelado envermelhou meu rosto. Esfreguei os olhos, girei os calcanhares e voltei para casa sem olhar para trás.
Um galho de árvore…
Quantos dias ainda teremos desses dias delirantes de frio?
Se eu acreditasse em alguma coisa, juraria que no último instante, pelos cantos dos olhos, vi um bodezinho campeiro correndo ladeira abaixo, assim que o vento gelado voltou a soprar.

O Tempo, o Vento e o dia que o temporal escondeu o final da novela.

Tenho uma relação antiga com o Vento, dele conheço até mesmo o rosto: é um jovem sorridente, da cor transparente, dos cabelos lisos jogados dos lados e ligeiro feito a vida.
Ah, o sorriso do Vento é uma imagem perene no meu fechar de olhos.
Conheço também seu inseparável companheiro, o Tempo: um velho banguela, feio e cruel.
Às vezes o Vento traz consigo a eterna namorada, uma moça linda chamada Brisa e dela desprende todo o encanto de antigas lembranças…
Na pequena casa de madeira, tínhamos a nossa televisão bem no centro da sala, majestosamente equilibrada por cima de uma mesinha. Às vezes dava choques ao apertar algum botão, e quando a imagem ficava ruim, tio José colocava bombril nas pontas da antena e tudo voltava a funcionar perfeitamente.
Nos rastros dos tanques sulcando a terra, os pingos grossos de chuva no começo da tarde daquele dia anunciavam o temporal que não tardou desabar.
Minha avó correu a tapar os espelhos da casa com lençol e a profetizar que seria ligeiro: “chuva de verão, passa logo” – garantiu, num riso de certeza – e danou a desvendar um segredo da natureza:
– Não tenha medo do barulho do trovão, enquanto você tapa os ouvidos e treme de medo, o perigo já passou, o que mata é a luz do raio, não o barulho do trovão.
Mas outubro ainda não era verão e o temporal durou mais de horas. Mesmo com o fim da chuva, o céu prosseguiu riscado de raios.
Exatamente quando os ponteiros do relógio se abriram como se fossem duas pernas, a luz acabou. Minha avó colocou as duas mãos em volta da cabeça:
– E agora, meu Deus?
Era dia do último capítulo da novela, quando finalmente seria revelado o assassino da megera e a mocinha finalmente resolveria se entregaria os lábios ao galã ou não. Todos sentimos o desespero, andando de um lado para o outro na escuridão, tensos, segurando pires de velas nas mãos. A luz só voltou de madrugada, quando todos dormíamos.
Nos primeiros minutos da manhã seguinte, debruçada na janela, minha avó percebeu ao longe a chegada da irmã Adelaide; os olhos brilhantes, a testa acesa, o rosto quase sem conseguir segurar os olhos. Vinha ligeira, como quem traz notícias boas e ruins.
Desesperou-se:
– Ela vai me contar o final da novela.
Tio José abriu um sorriso:
– E isso não é bom?
Vó Aurora balançou a cabeça:
– Não, eu não quero ouvir dela.
Antes de alguma pergunta, tratou de esclarecer:
– Ela não sabe contar estórias, vai logo para o final, dispensa detalhes e eu gosto mais dos detalhes do que qualquer outra coisa.
Coçou a cabeça branca, estalou os dedos, olhou para mim:
– Você precisa ir logo para o colégio, ouvir dos seus colegas e depois me contar.
– Mas por quê?
– Você sabe contar os detalhes.
E antes que a irmã batesse na porta, fingiu mal-estar, uma dor terrível na cabeça, fechou a porta do quarto e a mandou voltar no dia seguinte.
– Uh, uh, como sofro! – Gemia a avó, a voz saindo espigada, a cabeça enterrada no travesseiro.
Tia Adelaide suspirou, quase conformada.
– Mas eu queria tanto saber o fim da novela. Acabou a luz lá em casa na hora e….
Vó Aurora arregalou os olhos, levantou-se de supetão, jogou os cabelos nas costas, abriu a porta do quarto e abraçou a irmã.
– Almoce aqui – e apontou para mim com a testa – ele vai à escola e quando retornar nos contará como foi o final da novela.
– Mas a sua dor de cabeça?
– Ainda dói um pouquinho, mas logo passa de vez.
E foram coar o café.
Na escola ninguém sabia o final da novela, o corte da energia elétrica atingiu o bairro todo.
Ao voltar, abraçado pela angústia de não desapontar minha avó, encontrei todos ansiosos, inclusive o tio Gutemberg, que quase nunca nos visitava, mas imaginando que a eletricidade não tinha acabado pelas nossas bandas, também ansiava por saber o final da novela.
E tantos foram os brilhos de olhos na minha direção, me senti como se eu fosse a própria televisão.
Deve ter sido esse o momento que o teatro entrou em mim: todos sentados à minha frente, os olhos arregalados, ouvidos atentos a cada palavra, acompanhando atentamente os meus gestos: eu mentia, sem admitir nem mesmo para mim que mentia, inventava imagens, compunha falas como se estivesse escrevendo versos sem rimas.
– E então, e então? – perguntavam numa só voz – e a voz já não era minha, era a de um homem malvado, uma donzela indecisa, um herói montado a cavalo: e seguia para desvendar o assassino quando tia Adelaide se intrometeu no caminho:
– Aquela moça adoentada, conseguiu andar?
Logo ela, que não sabia contar os detalhes, queria saber as curvas da estória.
– Sim, sim, ela andou, acabou feliz.
– Eu sabia, eu sabia! Disse a minha avó, num sorriso triunfal.
E o assassino antes imaginado, falhou por instantes na minha mente. Tentei ganhar tempo:
– Sobrou bolo?
– Ora rapaz, depois você come, precisamos saber quem é o assassino!
Tio Gutemberg muitas vezes era irritante. Fiquei sem resposta imediata, resolvi ouvir antes de falar:
– O que vocês acham? Apostas, vamos, digam.
E a delícia ao perceber a ficção se tornando real aos olhos dos meus parentes:
– Com certeza foi o advogado. Disse tio José. Minha avó fez cara séria, uma descompostura balançando a cabeça negativamente:
– O doutor Cândido? Imagina! Ele é uma boa pessoa, jamais seria capaz…
– Quem foi então? – Tio Gutemberg formou na testa diversas rugas.
Ameacei responder, mas tia Adelaide foi mais rápida:
– Catarina, aquela sonsa, desconfio dela desde sempre.
Novas rugas na testa do tio Gutemberg, a mão peluda tremulando
num toque nervoso de dedos por cima da mesa:
– Não, uma mulher puxar o gatilho? Não creio – assegurou e depois me olhou, severo:
– Vamos menino, diga logo o nome do assassino!
E veio o estalo, como uma caneta de tinta fresca percorrendo um papel incrivelmente branco, a descrição do ato do meu assassino preferido, que só podia ser o filho rejeitado da morta. Não consegui falar, súbito surgiu na televisão o rosto pálido do repórter:
– Informamos que por causa do temporal da noite anterior, o qual ocasionou o corte da eletricidade por toda a cidade, repetiremos hoje, no mesmo horário, o final da novela….
– Poxa, quem diria? Foi na cidade toda, mesmo. – Suspirou aliviado o tio José.
– Não conte quem é o assassino! – Disse a minha avó, o olhar fulminante, o dedo magro perto da minha testa.
Tio Gutemberg me olhou com desprezo, tia Adelaide passou as mãos nos meus cabelos, “meu rico filho”, disse e beijou-me a testa.
Foram embora em seguida e a dia custou a passar. À noite, em volta da televisão, assistimos ao final da novela.
Um suspiro de alívio me tomou, acertei quase tudo, cheguei a comemorar quando a moça doente se levantou da cama e beijou o antigo namorado.
A cena final, inesquecível, Virgínia beijou o Afonso e fim.
Mas e o assassino?
Tia Adelaide estava certa desde o começo da novela, Catarina, a sonsa, era a assassina e eu nem desconfiei.
Ao longe raios, trovões…
O Tempo voa nas asas do amigo Vento, espalha pelo ar o cheiro de nova tempestade, mas a Brisa chega antes e abraça o meu rosto…
E nos primeiros pingos da chuva, converso com os fantasmas da minha avó e seus dois irmãos: ouçam a estória que lhes conto, todo escritor é um mentiroso, mas creiam, apesar do Tempo, vocês ainda existem no sopro do Vento.
No final confesso meu eterno medo da tempestade e eles desconfiam, respondem ao mesmo tempo: “deve ser noite de céu estrelado lá fora…”

O Vlad ruivo, o sorriso da tia morta e a noite dos hipocondríacos

Eu não sei exatamente se foi uma desculpa para sair do apartamento e ver como andam as coisas lá fora, ou se realmente estava sentindo umas pontadas no peito e vendo bolinhas coloridas flutuando no ar ao acordar.
Será grave? Morrer devia ser opcional, todavia, envelhecer é um saco. Saudades da juventude, de quando o único medo era pegar uma doença venérea.
E logo me vi na sala de espera do consultório do cardiologista. Uma poltrona sim, duas não, assim dispostas, na intenção de manter a distância entre as pessoas e evitar a contaminação pelo vírus corona. Máscaras, muitas máscaras. A mocinha na ponta é filha da senhora sentada duas poltronas depois. Os olhos idênticos entregam. Caso atípico de mãe mais bonita que a filha. Sinto uma vontade imensa de ir até elas e me apresentar: Olá, meu nome é Vladimir de La Mancha e só tenho medo de dentista. Elas nem me olham. Acho estranho. Tenho o costume perverso de imaginar que todas as mulheres do mundo estão interessadas em mim.
A secretária do médico é uma mulher da minha idade, ou quase isso, o olhar tristonho na cara ossuda me faz imaginar a sofrência de quem acorda todos os dias às cinco horas da manhã e passa quarenta minutos tentando encaracolar as pontas dos cabelos. Sorrio para ela que faz não perceber. Sofrência acarreta ignorância. Coço o queixo, a secretária me lembra uma tia, a respeitada dona Amélia, irmã do meu pai, morta no carnaval de 85, após anos trancada dentro de casa e que de repente escapou para a vida, farreou tanto, bebeu o que encontrou pela frente, fez sexo com o frentista no banheiro do posto de gasolina e depois com dois caminhoneiros estacionados na escuridão dos becos do jardim Paulista.
Um deles a fez engolir uma pílula branca e ela desabou de vez, caiu morta, fulminada, indiferente à luz do sol que surgia no horizonte.
A loucura daquela noite teve origem semanas antes, quando tia Amélia recebeu o diagnóstico de um cardiologista. Era um papel do tipo pena de morte. Sinto a dor no peito. Será doença hereditária?
Quando avisaram, meu pai colocou as duas mãos na cabeça e ficou repetindo:
– A Amélia, a Amélia?
Uma das poucas vezes que vi lágrimas no rosto do velho Coronel, as mãos trêmulas segurando o telefone enquanto olhava para minha mãe, que também colocou as mãos na cabeça, mesmo antes de saber a notícia:
– A Amélia? – Chorou e correu a me abraçar. Eu já era homem formado, mas a minha mãe quis me pegar no colo.
– Vladinho, Vladinho, a Amélia, a Amélia…
Sim, tia Amélia estava morta. Eu, que nunca fui com a cara dela, dei de ombros, já imaginando a choradeira dos dois no velório.
– Tão nova – disse o meu pai num balançar de cabeça diante do caixão – enquanto a minha mãe enxugava os olhos com um lenço, o soluço a cada cinco segundos e eu imaginando se demoraria o enterro, tinha futebol na televisão mais tarde e eu não perco jogos do Flamengo de jeito nenhum.
Devia ser proibido velórios aos domingos.
Na única vez que me aproximei do caixão me deparei com uma imagem surpreendente: tia Amélia estava sorrindo. Meu amigo escritor se postou ao meu lado. Apontei com a testa o corpo da tia Amélia.
– Percebeu o sorriso?
Ele se deteve:
– Parece mesmo.
– Você devia escrever um conto sobre defuntos sorrindo.
– Talvez… – respondeu num sorriso tímido, mas nunca escreveu.
Ajeitei a máscara no nariz e espantei os pensamentos de gente morta.
De repente um vulto enorme atravessou a sala, atrapalhando meus devaneios: um homem enorme e ruivo, o único no lugar que me dirigiu um cumprimento de sorriso permanente no rosto. O demônio é ruivo, costumava dizer a tia Amélia.
A voz do doutor escapou de repente de dentro da sala:
– Senhor Vladimir!
Levantamos ao mesmo tempo, o grandalhão ruivo e eu.  Apontei para ele:
– Seu nome é Vladimir?
– Sim. O seu também?
– Sim, olha que coisa?
O médico chama novamente:
– Senhor Vladimir.
– Qual deles? – Perguntamos ao mesmo tempo, o grandalhão e eu. Rimos. O doutor resolveu a situação.
– Vladimir De La Mancha.
Sorri para o outro Vladimir:
– Sou eu, mas não vou demorar, é só para pegar receita do remédio para a pressão.
– Nossa, olha só, eu também vim aqui só para isso.
Rimos.
O doutor me recebeu sem olhar diretamente para mim, a respiração ofegante na máscara branca, os óculos embaçados, os cabelos ensebados.
– Então senhor Vladimir, em que posso lhe ajudar?
– Eu sou cliente antigo, o senhor deve se lembrar de mim…
Só então ele ergueu o rosto e forçou a vista. Eu sorri dentro da máscara.
– Meu nome é Vladimir de La Mancha e só tenho medo de dentista.
Ele finalmente me reconheceu.
– Agora me lembrei. O senhor invocou que estava morrendo do coração tempos atrás.
– Ano passado. Estava vendo manchas.
– Sim, parece que foi ontem. Mas e agora, o que aconteceu?
– Eu acho que preciso aumentar a miligrama do remédio para pressão, ando ouvindo uns tic e tacs no peito, uma dorzinha de cabeça e a vista embaçada.
Ele não disse mais nada, enfiou no meu braço o aparelho para medir a pressão, fux fux fuuuxxx, o olhar no relógio, outro para mim:
– 12 por 9…
– E isso é bom?
– É ótimo. Sua pressão está normal, quase de um jovem;
Ato contínuo, enfiou o estetoscópio no meu peito e ficou olhando para o relógio no pulso.
– Normal…
– Mas eu ando vendo umas bolinhas e ouvindo uns tic tacs no coração, doutor.
– Vladimir, você tem o coração de ferro. Pode morrer de outra coisa, mas não do coração.
– Que outra coisa? – perguntei, desconfiado – ele sorriu.
– Fígado, rim, pulmão…
Senti uma leve tontura. Meu fígado, pobre do meu fígado, jorro nele bacias de álcool e gordura todos os dias. Meus pulmões, coitados, certamente são azuis, fumo desde os quinze anos. E os rins, meu Deus, como conseguem filtrar a bagaçada toda? Vou morrer, certeza.
– Mas aparentemente você não tem nada de grave. Vou pedir uns exames, só para confirmar.
– Doutor, seja sincero, eu corro risco de vida?
– Já disse, você tem o coração ótimo, o resto vamos ver depois do resultado dos exames de sangue. Aparentemente você está ótimo.
E se despediu de mim com um olhar de quem esconde segredos. Havia algo da tia Amélia naquele olhar.
Sai sem encarar as mulheres, imaginando o que podia fazer no restinho de vida que ainda me restava.
O grandalhão ruivo estava ao pé da porta.
– Vladimir Polinski – chamou o doutor.
Fiz um sinal de testa no rosto de quem se prepara para morrer. O ruivo me encarou como se ouvisse meu pensamento.
– Deu ruim lá dentro?
– Acho que vou morrer – e desabei numa confissão atrás da máscara – meus pulmões, os rins, o fígado, tudo lascado, ele nem falou da bexiga e eu vou ao banheiro urinar a cada cinco minutos…
– Cara, calma aí, espere eu sair, vamos conversar. Você está de carro?
– Não se incomode, vou pedir um Uber.
– Faço questão de lhe dar uma carona, me espere.
– Tá, estarei lá fora vendo o mundo enquanto posso.
Não precisei esperar muito, no máximo umas quinze respiradas profundas, atento mentalmente ao registro das coisas que ainda não fiz e talvez não tivesse mais tempo.
O ruivo veio até mim trazendo também um ar de desespero.
– Xará, ele me pediu uma porrada de exames. Estou com algum coisa ruim, certeza.
E quase nos abraçamos, o olhar quieto daqueles que desejam a colisão dos planetas e a morte do mundo todo.
– Venha, vamos – ele disse, me apontando o estacionamento.
O Vladimir ruivo tinha um Opalão branco, das rodas cromadas e bancos de couro. Para quem tem mais de cinquenta anos, não existe nada que supere o empolgante ronco do motor de um Opala.
Faltava assunto e de estalo me veio a confissão:
– Meu nome é Vladimir por causa do meu pai que invocou de juntar o nome da minha mãe com o dele.
– Cara, que incrível, comigo aconteceu a mesma coisa.
Coloquei as mãos no peito:
– Vladislau e Nadir.
Ele balançou a cabeça num sorriso sem fim, uma mão no volante, outra no peito:
–  Valda e Almir.
A voz da mulher do google maps mandava ele seguir, ele virava, mandava andar seiscentos metros, ele seguia mais de quilômetro, tudo levava a crer que queria continuar conversando.
– Vamos tomar umas cervejas? Sugeriu.
Foi o mesmo que oferecer bananas a um macaco.
Encontramos um bar aberto e nem era quatro da tarde.
– Fechamos às oito por causa de pandemia – avisou o dono do bar –.
Tinha um defeito terrível o outro Vladimir, não parava de falar e se elogiar, era mestre em tudo e, se não fosse a cerveja gelada, pediria um Uber disfarçadamente e iria embora. De repente ele começou a citar autores – odeio isso – Proust, Machado, Borges e um tal Casares:
– Morei em Buenos Aires e lá, ler é quase uma obrigação.
Sou mestre das desculpas esfarrapadas:
– Leio pouco, minha vista anda cansada.
Ele fez um gesto de desprezo com o canto da boca, quase um sorriso. Quando sorria, Vlad ruivo ficava parecido com a tia Amélia no caixão.
O tempo foi passando, a noite chegou e a cerveja parecia cada vez mais doce e gelada. Vlad ruivo queria me contar outras habilidades, a espuma escapando dos lábios, as máscaras esquecidas no canto do balcão, “fechamos às oito” lembrava o dono do bar. E não era oito quando a cerveja acabou. Tem conhaque? Só Presidente. Bebemos a garrafa inteira. E se o mundo acabar? Tem uísque? Uma garrafa de Passaporte, disse o dono do bar, que já estava fechado, mas ele foi camarada e nos deixou ficar com as portas abaixadas. Um homem bom, sem dúvidas, desnecessário corrigir o nome do uísque, porque de Passport eu entendo. Quando o uísque acabou, enxergamos um pé de limão no quintal. Eu faço a caipirinha, disse o Vlad Ruivo, já abrindo a garrafa de Velho Barreiro. E assim fomos até a lua dar nos ombros.
E não me lembro de quase mais nada, apenas imagens confusas, o ronco do motor do Opala, luzes piscando no teto, tal e qual os globos das antigas discotecas, sons difusos, fumaça no chão, vozes aqui e ali, nu o Vlad ruivo parecia um urso, no extremo do palco enxerguei o sorriso da tia Amélia numa das dançarinas e na hora ressoou nos meus ouvidos a voz do meu pai: “a Amélia, a Amélia?” E os rostos de máscaras passearam até a tia Amélia surgir me abraçando, terna, doce, eu que nunca gostei dela…
– O diabo é ruivo meu filho, nunca se esqueça.
E chorei ao invés de sorrir, porque a tia Amélia morreu sorrindo e eu não queria morrer de jeito nenhum: tão novo, diria meu pai, tão belo, diria a minha mãe, porra Vladimir, que merda você fez? Perguntaria o meu amigo escritor diante do meu cadáver esticado num caixão, sorrindo envolto em punhados de rosas amarelas.
Acordei no dia seguinte, perto das cinco da tarde, estirado na minha cama, nu e suado, esquecido de tudo, mas vivo e sorrindo.
Toquei meu corpo inteiro, nenhum rasgo, nada faltando, ausência de ardências.
E se não fosse a ressaca monstra, beberia uma cerveja, porque mais tarde tem jogo do Flamengo.
O pedido de exames devo ter deixado no bar, ou no Opala do Vlad ruivo.
–  Depois resolvo isso, ou esqueço de vez – disse comigo mesmo, em voz alta, atrapalhado pelo som do sonrisal explodindo no copo de água gelada.

Ismália, a lagartixa e o vendedor de biju.

Acordei com a Ismália de Alphonsus Guimaraens caminhando no meu pensamento. A virgem quase morta, semienlouquecida, sem saber se queria a lua do céu ou a lua do mar, os pés fincados nos últimos torrões de terra de um despenhadeiro, observando lá embaixo a luz opaca de um vilarejo distante, restos de mundo apagado no qual um rapaz caminha apressado, empunhando sua jaqueta amarela contra o vento.

Alphonsus Guimaraens preenche uma lacuna inexplicável no meu gosto mortiço pela poesia. São ecos de dor rimando assombros e exclamações. Desde quando eu era jovem, Ismália aparece nos meus sonhos e nunca consegui espantar para longe a dor do poeta.

Em mim, Ismália vive e se mistura a outros personagens, como agora, com o Jonas da série Dark, navegando em perturbadoras idas e vindas ao futuro e ao passado.

Dark é tão fascinante que me fez pregar a atenção na televisão e maratonar durante três dias seguidos os episódios da terceira e última temporada, resultando nuns pensamentos estranhos que me apanharam na forma de inquietantes interrogações:  e se tudo for mesmo efeito de uma Matrix? E se ocorrer alguma falha na Matrix, conforme Jonas alertou em diversos episódios da série?

Penso nisso nessa manhã fria de julho, os olhos passeando sobre uma lagartixa grudada na parede, enquanto minha mulher coa o café.

Sou um solipsista convicto quando estou bebendo café. Nesse instante divino, que o paladar e o olfato se chocam, nem sou eu, sou Bob Dylan e Cortázar desvendando o homem que vendia biju e passava em frente de casa todos os dias, exatamente às quatro da tarde, há muito tempo atrás. Eu tinha cinco anos e jamais me esqueci daquele rosto: os olhos azuis enormes, a boca de dentes pontiagudos e separados, cabelos ralos dos fios longos e da pele cor de garapa, bem parecido ao Golum de Senhor dos anéis.

A lagartixa pisca e Ismália sussurra no meu ouvido: “E como um anjo pendeu, as asas para voar…Queria a lua do céu, queria a lua do mar…” faço um pedido calado, num morder de lábios: dê dois passos para trás Ismália, fuja enquanto é tempo, se afaste do despenhadeiro, não encare o abismo, suas asas são apenas estrofes utópicas de um poeta atormentado.

Alphonsus, pobre Alphonsus…

Talvez o retrato real do vendedor de biju fosse mais ameno –  Golum é muito apavorante – era na verdade um senhorzinho cansado da lida, dos cabelos finos, suados e espigados, escapando pelo chapéu de palha, até se esparramar na testa, a pele castigada pelo sol, fazendo arder os olhos grandes de tanto sofrer, as mãos ardentes de empurrar o carrinho do biju, os pés dos sapatos furados buscando a paz de uma sombra na árvore. Talvez… Mas o desenho na minha mente é o de Golum e não consigo consertar.  

Se existe a Matrix, o antigo vendedor de biju é o sujeito que a mantém ativa.

Um calafrio percorre meu corpo quando penso nisso. E se ele se cansar de vez e deletar tudo?

Anos depois, tive um professor de matemática bem parecido fisicamente com o vendedor de bijus. Terças e quintas – pontualmente às sete horas da noite – os dias das aulas de matemática, palco de um dos meus tantos tormentos.

O barulho de giz riscando a lousa de números e sinais, a voz cansada, o olhar repentino para trás, indo de encontro aos meus olhos escondidos de medo no canto esquerdo da sala de aula.

– Entendeu? – perguntava o professor, assim mesmo, no singular, olhando diretamente para mim.

Falha na Matrix…

Eu olhava para ele que me devolvia o olhar, parecendo ler meus pensamentos.

Aprendi o teorema de Bhaskara movido pelo medo.   

O tempo passou e o vendedor de biju, depois professor de matemática, se transformou no motorista do ônibus 157 que fazia a linha centro – Cophavila II e passava pontualmente as cinco e meia da tarde, descendo a Rua Maracaju, completamente lotado, virando a Calógeras, depois a Afonso Pena, atravessando os trilhos, esparramando os corpos, mas pelo menos dessa vez o seu olhar era reto, as mãos no volante, às vezes cambiando a marcha num esforço de estalar as veias.

– Quero mais café – digo e já apanho o bule para perto de mim.

A Graziela me olha atravessado:

– Já estamos atrasados.

Desfaço do aviso num riso de canto de boca: já podemos nos permitir alguns atrasos.

– Você já notou como são enigmáticas as lagartixas?

– Lagartixas? O que tem elas?

– Estava pensando, e se tudo for uma falha na Matrix?

– Ah pronto! Eu falei para você não assistir Dark…

Sorrimos, mas continuei pensando: e se a lagartixa for parte real do universo e nós apenas um quadro na parede que ela observa enquanto espera, pacientemente, surgir um bicho apetitoso para lhe saciar a fome?

Graziela balança a cabeça e come a torrada. O barulho me irrita e tento conversar em pensamentos com a lagartixa: olá, eu sou humano, consegue entender a minha fala? Abane o rabo se sim.

Por incrível que pareça, o bicho fez um leve balançar de rabo.

– Você viu isso?

– Não vi nada.

– A lagartixa! Ela entende o que eu penso.

– Pronto, lá vem você…

– É sério, ela mexeu o rabo.

– Deixa o bicho em paz e por favor, não comece com aquela estória do vendedor de biju parecido com o Golum.

– Vou tentar de novo. Observe: lagartixa, existe a Matrix? Se sim, mexa o rabo.

Graziela mantém o olhar preso na lagartixa por dez segundos.

Nada. Completamente imóvel. Ela ri e balança a cabeça negativamente.

Fiquei quase dois minutos esperando e nada. Maldita lagartixa!

– Não esquece a máscara e vamos indo.

Um último gole de café e a pressa acelera os nossos passos.

O barulho da garagem subindo é a trilha sonora ideal do mundo real se abrindo em cortinas.

E o corpo de Ismália perdeu as asas que Deus lhe deu, subiu ao céu e depois caiu no mar e eu…eu conduzo o carro terra abaixo, sem asas para voar. Máscaras, óculos embaçados. Esse vírus maldito anda levando embora as pessoas erradas: mal me recuperei do Aldir Blanc, agora foi o Antônio Bivar. 

Essa pandemia só pode ser uma falha da Matrix.

Sigo dirigindo enquanto o pensamento borbulha: Ismália sou eu, diria Alphonsus Guimarães, tal e qual Flaubert bebendo veneno na intenção de salvar Emma Bovary.

Peguei cinco sinais abertos e fiquei aborrecido, desejava um sinal fechado para digitar rapidamente no celular um pensamento que me ocorreu de repente, um conto narrado em primeira pessoa, eu transformado numa lagartixa, passeando pela parede à espera de uma mosca descuidada:  que bichos estranhos são aqueles bebendo café e comendo torradas?

Deus é o tempo, definiu Jonas nos momentos finais de Dark. O tempo, logo ele, um túnel sem fim…

Venha Ismália, pegue nas minhas mãos, não encare o abismo, siga o alerta de Friedrich, o bigodudo:  “Se ficar muito tempo olhando para o abismo, o abismo também olhará para você”.

Enfim, chegamos ao nosso destino.

– Vamos entrar logo, antes que apareça o senhorzinho vendedor de biju – diz a Graziela em meio a um sorriso.

Na mesa do escritório, finalmente os pensamentos vão embora, levados pelo sossego de um gato vadio que aparece de vez em quando e sequer lhe demos um nome.

Eu o desprezo, mas ele gosta de mim, quer me chamar de seu dono.

Se for fêmea será Ismália, se macho, Jonas.

Depois levanto-lhe o rabo e verifico – penso e sorrio – enquanto o bicho rosna, deitado nos meus pés.

As duas calçadas

Quando olhei em torno de mim, o ruído de antes estava lá, despencando das paredes rachadas, carcomidas pelo tempo, assombrado pelo silêncio reinante, como se cumprisse um pacto para não despertar os fantasmas do hotel Gaspar.

Senti então o inesperado peso no corpo, a magia de um sortilégio, como se estivesse carregando minha casa nos ombros, feito um caramujo, passeando devagar pela calçada deserta, repleta de luzes e espinhos do tempo, pesada feito uma rocha apaixonante. 

Ah o vento, esse amigo inseparável que nunca dorme, assoprando na minha testa imagens do ontem, trazendo o tamborilar das gotas geladas que molhavam minha roupa, provocando a vontade de correr da chuva e me abrigar numa daquelas portas.

Já não existe a chuva e todas as portas estão fechadas.

A chave gira na fechadura do tempo – outro velho conhecido – ouço vozes, sinto passos enquanto  um som de berrante distante escapa de um facho de luz , desenhando o contraste das calçadas: de um lado os comerciantes turcos, do outro lado bares e prostíbulos,  a boca do lixo , frente a frente, se cumprimentado num tom de respeito, como se fossem parte de uma única célula da cidade que crescia.

O relógio gigante da loja da esquina rugia um tic tac incessante, mas agora parou de girar.

Uma vertigem, a brutal realidade atual, um ar de completo abandono percorrendo as paredes em volta de mim e o pensamento me cala de vez: se não fosse a guerra, não existiriam as calçadas e as minhas letras (talvez) contariam outros sonhos.

 Um carro avança apressado, saindo feito um raio do viaduto da Rua Antonio Maria Coelho. O motorista não sabe, antes, ali só existia o monte de grama grudado nos trilhos e meus olhos de menino estavam perto quando a prefeitura resolveu fazer um corredor na lateral do viaduto – uma luz viva na memória guarda o momento da inauguração – três homens usando terno e gravata fizeram comício, um deles exaltou o grande feito da engenharia, citou Pitágoras, falou do  arco do triunfo e explodiram os aplausos.

O prefeito surgiu logo depois, vindo pela calçada do lado dos turcos, usava bombacha, camisa de algodão, chapéu de abas largas, botas pretas do brilho intenso, em contraste com o sol queimando o seu rosto rosado e banhado de suor. Era um homem de poucas falas, ouviu num sorriso os discursos e disse no fim: “então está feito, vamos embora!” E voltou pelo outro lado da calçada, abarrotada de gente; os bêbados pararam o jogo de sinuca, as prostitutas abriram os braços deixando os seios quase escapando pelos vestidos coloridos, gritaram o nome do prefeito e ele respondeu com sorrisos e acenos de chapéu. O repórter calvo correu atrás, falando ao microfone numa pressa de quem tem fome e foram desaparecendo diante dos meus olhos, até se perderem detrás do prédio da loja consumida pelo incêndio tempos antes.

Olhos no céu de hoje. A porta do primeiro bar ainda é a mesma na qual vi de perto meu primeiro morto, caído três passos adiante, fedia cachaça e da barriga escapava um fio de sangue, os olhos abertos, o bigode áspero espumando a angústia do fim. O repórter calvo estava lá, “direto da boca do lixo, um morto caído na calçada, esfaqueado numa briga de bar”, disse num tom de voz arrepiante.

Se não fosse a guerra, não existiriam as calçadas, as rádios, a cidade.

Eu não ligava para a chuva, gostava de andar com a camisa encharcada. Quando o patrão precisava de troco, entrava na boca do lixo como quem entrava nas lojas, as prostitutas sempre tinham dinheiro miúdo, os bêbados também.

As pétalas das flores ainda não tinham se aberto para mim e enxergava as prostitutas como se fossem as donas dos bares, o sorriso sempre estampado no rosto abarrotado de ruge e batom.

Elas vieram com a guerra…

A música que eu gostava falava de bêbados trajando luto, mas os meus bêbados vestiam camisa em listrado, usavam botas, chapéus de couro ou de palha e bebiam pinga como um perdido no deserto. Ainda agora ouço o repicar das bolas se chocando na mesa de sinuca. Outra música falava de uma nuvem passageira e agora eu sei o tanto que ela é ligeira.

Paro na esquina das ruas que antes ferviam e ninguém mais escuta o som do berrante, quase ninguém sabe da guerra, não existem mais as vozes das calçadas, nem mesmo os risos, o cheiro de pinga de um lado, do couro de sapato no outro. Restam as paredes caindo e o amedrontoso silêncio. Acaricio as paredes dos quartos da casa que carrego nas costas, ela permanecerá ali, desabando enquanto as gotas da chuva – lágrimas turvas e quentes – despencam do barranco do viaduto, em busca do rio escondido abaixo do asfalto na esquina, ao som distante de um lamentoso berrante. 

Meus olhos são verdes enquanto sonho

Saudade é um punhado de areia nos olhos.
Penso no passado enquanto a pressa entra pelos vãos do vidro do carro. Perto de casa existe um campinho de futebol, observei de soslaio, dias atrás, naquele breve momento que a febre da pressa me abandonou.
E vi um menino correndo num campo de terra atrás de uma bola velha. Areia nos olhos…
Ah, minha mãe, me conte histórias, de quem era aquela carroça atravessando a Avenida Contorno, o caminho cheirando estrume de cavalo, me levando de passageiro?
Hoje apenas sonho com aquelas manhãs fagueiras, reencontro o mesmo céu bordado de estrelas e nele voam as asas ligeiras das borboletas azuis que versou o poeta Cassemiro de Abreu.
Eu não deveria sentir saudades daqueles tempos rudes, mas sinto. E sonho às vezes.
Meus filhos eram pequenos quando acelerei a vontade de vê-los crescidos. Agora que cresceram, não tenho como fazer o tempo voltar e sinto saudades de quando suas mãos pequenas abraçavam o meu rosto. As folhas das árvores caíram e os outonos se foram, apressados como eu. Uso um relógio de pulso dos ponteiros grandes parados, mas os segundos atropelam os pensamentos.
Meus olhos mudavam de cor quando eu era menino; pela manhã eram castanhos, quando o sol se punha se transformavam num quase verde e assim prosseguiam durante o sonho. Ninguém me disse isso, ninguém percebeu, mas eu imaginava assim.
O acelerador é mais atraente que o freio.
Agora, sentado diante do computador, revejo passo a passo como foi meu dia até aqui: eu tinha tempo, mesmo assim, atravessei o sinal fechado.  Na outra esquina, um pedinte deixou pendurado no retrovisor um pacote de balas. Eu tinha um real jogado no console e mesmo assim recusei as balas, sequer olhei nos olhos do pedinte. Acelerei, eu tinha tempo, ainda assim, não cumprimentei o frentista, nem sei a cor dos seus olhos, que talvez mudem de cor ao cair da noite, quem sabe?
Acelerei novamente enquanto a chuva caía formando a enxurrada que não levou embora a minha pressa.
Nuvens invadiram meu pensamento: faltou tempo para visitar aquele amigo antes dele morrer. Deixar para depois foi mais confortável – suspiro. Aos poucos, vou me esquecendo do seu rosto e o som da sua risada, restando a nuvem opaca do último cigarro que fumamos, turvando o meu olhar. Na pressa, o cinzeiro ficou cheio e o cigarro acabou.
E a nuvem prosseguiu confrontando minha ânsia; a minha tia, que ajudou a me criar, falta tempo para ir visitá-la.
Eu vou tia Eurinda, assim que essa pressa acabar.
Os minutos são pura abstração, por que usei de reticências quando necessitava apenas de um ponto final?
Borges escreveu que na fúria da pressa Demócrito de Abdera arrancou os olhos para não se distrair e poder pensar. Demócrito me causa anseios e medos: que será de um homem com tempo para pensar, mas sem os olhos de ver?
Meus pés prosseguem ligeiros, embora as portas que hoje atravesso não façam tanto ruídos e o verde já não invade meus olhos nos fins de noite.
Venha Dona pressa, chegue perto, tenho algumas coisas para lhe dizer: é preciso perceber o vôo colorido da borboleta, antes que morram as lagartas. E se as abelhas não mais existirem quando enfim a pressa acabar e não restar um único favo do mel? É preciso ver a alvorada, da praia ou da beira do rio, enquanto existe o sol.
Vá embora Dona pressa, que meus olhos já não são verdes quando o dia termina e um deles já se zangou com o tempo.
Ah minha mãe, me conte histórias, daquelas de quando as fontes brotavam na terra, antes que tudo se transforme em areia e essa mesma areia, um punhado dela, se esparrame em nossos olhos no tempo que nos resta, se transformando em rios de saudades.
Os deuses dormem sem pressa, sabem que o fim dos tempos ainda demora e a pressa dos homens nada mais é que a escravidão do próprio homem.
E é por isso que eu sonho. No sonho não tenho pressa e lá, sem que ninguém perceba, meus olhos continuam verdes.

Diante do espelho

Tenho costumes antigos; uma mania boba aqui, outra acolá, como aquela de coçar o cocuruto feito um macaco quando meu dou de frente com algo intrigante.
Também carrego o costume besta de rir sozinho, absorto pela imagem de cenas antigas, piadas mortas ou até mesmo por recordações de atitudes pueris.
Se não bastasse, faço contas com os dedos – pobres dos meus dedos – às vezes os transformo em jogadores de futebol chutando uma bola imaginária e até comemorando o gol.
Eu grito quando a dor nem é tão grande – qualquer aperto, já imagino a morte – sinto medo do escuro e roubo revistas nos consultórios.
Tenho uma vasta coleção.
Mas nada se compara à estranha mania de conversar com o espelho quando o dia recém amanheceu e os sonhos ainda caminham pela minha mente.
Nu, diante do espelho, descarrego profundezas.
É quando o verbo, pronome, metáfora e ênclise se misturam.  O banho quente primeiro, o escovar dos dentes depois, já com o banheiro tomado pela nuvem de vapor embaçando o espelho, logo após a briga corriqueira com a pasta de dentes que custou a sair do tubo.
Então ergo a cabeça e atrás do vidro embaçado, lá estou eu.
O outro eu.
Ele me encara, passa por nossas cabeças um filme completo do dia anterior, repleto de anotações de alguma coisa que eu podia ter feito diferente.
Sempre alguma coisa podia ter sido feita de outra forma.
Eu te conheço de algum lugar, pergunto ao espelho.
Ácido e ligeiramente torto, ele me responde: “velho, não percebe um filete de sangue nas gengivas?”
Estico as bolsinhas abaixo dos olhos ainda murchos de sono.
Detesto essas bolsinhas, elas me envelhecem de um tanto…
Rio um riso besta ao roçar com o dedo o pomo de Adão e a imagem no espelho faz o mesmo.
Depois se ergue, sorri, faz um sinal com a sobrancelha, como quem quer mostrar as rugas empurradas pelos vagões do tempo.
A bolsinha é pior – respondo – e sorrimos da própria desdita.
Talvez as rugas e as bolsinhas não sejam percebíveis.
Ele parece ler meu pensamento, balança a cabeça, “desde quando você se incomoda com o que os outros pensam a seu respeito?”
Sinceridade demais incomoda.
Faço com os ombros gestos de não estou nem aí.
Porquê escutar um sujeito que tem o coração do lado direito do peito? Chego mais perto sem me incomodar com o sorriso quase cínico.
Não é estranho? Cicatrizes mudam de lugar, mas a pintinha preta no canto da testa é sempre a mesma.
Para escapar do espanto, desenho no espelho um sol irregular, um quadrado torto e dos raios trêmulos.
Lembra quando a gente tinha cabelos? Era tão bom, afirmo, mas ele discorda: “dava muito trabalho, passávamos horas por aqui e no primeiro bafejar do vento desmontava-se tudo o que fora feito com tanto esmero.”
Esboçamos um sorriso contristado, repleto de cumplicidade.
Depois desabafo: é hipocrisia afirmar não se incomodar com o pensamento alheio.
O assunto morre, voltamos a sonhar, somos como os tais navegantes esquecidos numa balsa.
Onde você escondeu aquele menino que jogava bola? Qual aquela frase no túmulo do Salvador Allende? Onde foi enterrado o professor que você queria ser quando crescer?
Coço o cocuruto, vitupero, imagem estúpida, eu nunca quis ser professor. Ou será?…
Um finíssimo véu de gotas desce pelo canto da moldura, derrama a pressa feito lágrima e se desmancha entre os vãos da madeira.
De novo ele me encara, ausente de severidade, a cabeça quase deitada no ombro.
Tento escapar das rugas que novamente contemplo.
Em vão.
Eu queria ser poeta, desses bons de voar, só para encaixar, numa única frase, os meus olhos vermelhos dos tempos passados com a alegria de viver.
Loucos são os outros, penso enquanto visto a calça e depois abotôo a camisa.
Despeço-me num breve aceno.
“Tenha um bom dia, não se esqueça de fechar a porta, faz frio aqui sem você.” Não respondo, ele prossegue: “ conte-me tudo amanhã, quando a gente se encontrar novamente”, mas não me  atrevo a olhar de volta.  A brisa lá fora me convida a ser o homem liberto de Paulo Mendes Campos, e lá vou eu, abraçando o dia, preso a um pensamento constante que me faz coçar o cocuruto: preciso urgentemente acabar com as malditas bolsinhas abaixo dos olhos.

Se o homem não perceber

Eu queria escrever uma crônica linda, tão linda que alguém poderia supor ser um texto do Rubem Braga.
Presunção à parte, crônica só se escreve depois de enxergar o ar, quando os movimentos das ruas ou os ventos do passado nos mostram os encantos do dia.
Debrucei meus olhos lá fora e só encontrei frases soltas, indignas do Pirandello vendendo água no sinal fechado.
O que fazer quando a inspiração não se mostra em forma de crônica? Contar um conto, ora.
Pois bem, passeia na minha cabeça uma historinha que bem vale um conto. Ei-lo:
Entre as nuvens do céu cinzento, um facho de luz escapou indo iluminar a cabeça do menino que um dia seria poeta.
Somente ele notou a luz afagando seus cabelos e tentou apanhá-la com as mãos.
Depois sorriu, correndo se juntar aos outros meninos no sossego de soltar pandorgas.
O pequeno poeta vivia numa casa rosada, entre a cidade e a mata, bem ao meio.
Na estação dos ventos, foi quando começou a sonhar acordado, no instante sublime que o vento assoprou com força as folhas e derrubou as sementes. O homem não percebeu quando ele anotou os detalhes: eram diversos coelhos e olhavam para o topo do prédio distante, armados num brilho nos olhos vermelhos, como quem enxerga uma luz de pedra.
Apenas um deles restou ao fim do dia, exatamente o coelho diferente, das orelhas brancas e dos olhos mais brilhantes.
Após o frio, veio o primeiro dia da estação colorida, e o brilho das cores desenhou a coragem no coração do coelho.
À noite, os vagalumes iluminaram a escuridão e apontaram os perigos do chão úmido pelo sereno que caía.
O coelho chafurdou até encontrar a semente que julgou ideal e danou a saltitar para fora da mata, sem se preocupar com os perigos dos primeiros raios do sol.
O Homem não percebeu quando ele atravessou as avenidas da grande cidade, indo de encontro ao prédio que lhe gastava as vistas.
O homem sequer desconfiou quando o bicho escalou a parede de concreto até o pico.
A visão era larga, mas coelhos enxergam longe e ele logo percebeu, no exato local onde o sol batia, um punhado de terra esquecido na construção. Então cavucou ligeiro e jogou a semente.
Depois suspirou um respiro acelerado de coelho e tapou o buraco, enxugando por fim o suor do triunfo acima dos seus olhos vermelhos. Contemplou o feito numa euforia de raposa e só não sorriu porque coelhos não sabem sorrir.
O homem não percebeu quando ele retornou para a mata e lá se enfiou tentando abafar o acelerado medo de bicho.
Na estação do sol, o menino poeta sentiu um cheiro diferente no ar, mas engoliu a estranheza, capturado pelos gritos escapando dos becos.
Era uma turba de loucos que enxergaram no fundo da mata um vão de espaço no qual caberia um edifício.
Não pensaram, os loucos não pensam, apenas sonham, fazem da utopia um refúgio do abstrato.
O menino olhou os loucos se afastando; contou cada tijolo, os sacos de cimentos e o amontoado de areia que eles carregavam numa euforia insana.
Amarrados em seus insípidos cordões, os homens nada perceberam.
Os poetas, os loucos e os coelhos se entenderam num ritual de cumplicidade.
E vieram as outras estações.
Os loucos ergueram em meio à mata um enorme edifício e por lá se enfiaram, engalfinhados num cante de risos alucinantes.
Os homens não perceberam o cântico dos loucos, nem a trilha dos coelhos rumando até as paredes do enorme edifício.
O menino que seria um poeta já era rapaz, não soltava mais pandorgas, carregava enfiado no braço um caderno no qual tudo anotava.
E veio a nova estação e com ela os sinais no céu que os homens não perceberam.
Em meio à mata, entre árvores frondosas, o edifício de concreto rutilava entre as galhadas.
O poeta fez da folha do caderno a última pandorga; soltou a linha o máximo que pode e então, diante de seus olhos encantados, o vento soprou a pandorga de um lado para o outro, mostrando a utopia enfim desterrada, a árvore acima do edifício e o edifício erguido em meio à mata.
E o sino tocou juntando o riso do poeta e aborrecendo os demônios.
Se o homem não perceber, todo sonho é possível.

Meu antigo quintal

Do começo, guardo restos do pó daquele chão.

Era um quintal grande, um pé de Araticum na frente, bem próximo ao portão de madeira, barulhento e sem trinca.
No canto esquerdo, um enorme tronco de árvore, esticado, polido pelo tempo, onde minha avó batia a roupa e depois passava o sabão misturado com anil, combinando tudo com o azul das farpas da escova.

“Meu quintal é maior do que o mundo”, dizia Manoel de Barros. O meu quintal era bem menor e tinha medo do resto do mundo.
No centro, erguia-se o pé de manga e foi debaixo da sua sombra que notei os primeiros detalhes. Do graveto fiz lança e com ela passava horas futucando o chão, desencravando segredos, desvendando mistérios.

O maribondo do zumbido metálico não fazia buraco no chão à toa; era sua toca ou esconderijo, nunca soube ao certo.
Em dias secos, o vento formava redemoinho, e a gente se afastava ligeiro, porque diziam os antigos que o capeta estava no centro do redemoinho e bastava jogar um dente de alho que o bicho aparecia enfurecido.

Outro bicho estranho juntava pequenos gravetos, misturava com uma espécie de gosma e deixava grudado nos troncos das árvores. “Não mexa no casulo – alertava minha mãe – senão, pode matar a borboleta”.

Dentro do casulo, dormia um bicho feio e disso sei por que retirei um lá de dentro com ajuda do graveto. A luz do sol secou o bicho. “Era para ser uma linda borboleta” – bronqueou minha avó – e eu, num remorso sem perdão, passei noites mal dormidas.

O que uma borboleta fazia dentro daquele escafuncho?

Tempos depois, diante do imenso jardim florido, notei a ausência dos casulos, trocados pelo vôo colorido das borboletas.
Descobri então o espetáculo da metamorfose.

Na minha habitual inquietude, absorto diante das borboletas, procurei algum defeito e logo o encontrei, já armando no rosto um riso travesso: são lindas, mas não cantam  como as cigarras.

A paróquia ficava na esquina de casa e o padre aparecia de vez em quando, arrastando o portão, jogando água benzida pelos cantos, e então começou o meu medo de padre.

E o vento soprava tudo.

O pedaço de folha que se mexia, olhando de perto, era gafanhoto, às dezenas, num confronto de luzes com os besouros da couraça de brilho negro metálico.
Deus caprichou quando poliu os besouros.

No outono, as frutas caiam ao chão. Dentro da manga verde existia um pedaço branco semelhante a um bebê; fiz o parto, retirei o caroço, costurei com fios de cipó e deixei ao sol. Após alguns dias, a manga estava amarela e logo depois apodreceu, restando em mim o pavor de ter feito algo sem cura.

A nossa velha casa de madeira não tinha porão, mas foi lá que escondi os meus fantasmas.

Em um dia cinza, o sino da igreja badalou várias vezes num timbre triste. Minha avó tentou abafar o som do sino: “Deve ter morrido alguém” – Naqueles tempos, era muito difícil morrer alguém – “Quando morremos, viramos estrelas no céu”, ela disse e depois sorriu um riso de certeza.
Foi então que passei a notar as estrelas no céu.
O filho do vizinho era o responsável por tocar o sino da paróquia. Tinha o caminhar altivo e um olhar superior. Nunca entendi aquilo. Só porque tocava o sino? Marcos fazia pandorgas e para mim ele era infinitamente mais importante do que um reles tocador de sino.

Certa vez, ouvi um homem falar que qualquer um seria rico se encontrasse petróleo cavoucando o chão do quintal. Furei vários buracos, mas só encontrei formigas.
Elas me ensinaram que ser rico não era tão importante.

Marcos gostava de brincar de mágico: jogava um prego enferrujado num canto e o fazia mover com as mãos à distância.
Espantado, imaginei meu tio quase irmão dotado de poderes sobrenaturais.

No andar do tempo, fui registrando e ainda guardo na cabeça vários detalhes do antigo quintal: Beija-flor não picava a cachopa de maribondo, abelha não pousava na comida, sapo tinha medo de sal e inseto nenhum se atrevia atravessar o galinheiro.
Tempos depois, descobri que o Marcos não tinha nada de mágico, só era esperto, já sabia que o imã atraia o prego e o resto era teatro.

Ontem passeei pelo bairro, fixei os olhos no mesmo lugar onde antes havia o quintal e uma dor de saudade me apanhou diante do prédio enorme tapando o passado.

Restaram as estrelas, entre tantas, as duas que cuido com absoluto carinho, elas se chamam Marcos e Aurora e, mesmo no céu, ainda moram no nosso antigo quintal.

Resenha – O santo de cicatriz

O SANTO DE CICATRIZ, de André Luiz Alvez.

Marcelino Freire nos diz que quando vamos começar uma história a porta do inferno já deve estar aberta.

Acho que ele está com a razão, mas há excessões. Ao ler O Santo de Cicatriz, vi que a regra que Marcelino observou para contar bem uma história só atrapalharia a brilhante trama contada pelo escritor André Alvez, residente em Campo Grande MS.

André vai devagar, como o trem que sai da estação, ganha embalo ao ponto de parecer desgovernado, atinge a velocidade máxima, abre as portas do inferno na pancada, sai dele e diminui a marcha para entregar o leitor são e salvo na estação de destino.

A comparação não é à toa: André usa bem o antigo trem do Pantanal para mostrar sobre o que fala, a vida é uma passagem, todos tem o seu destino, há encontros e desencontros, felizes e infelizes.

A história do santo de cicatriz acontece no Pantanal sul-matogrossense, nas fazendas. O santo de cicatriz sai de São Paulo para tentar fazer fortuna em Aquidauana, a começar por um emprego como veterinário. Ao chegar na cidade, começa a sua Paixão…

Posso dizer que se trata de uma história solar, de um mito, do homem bom que tem o destino de Cruz. Posso dizer que é uma história universal, que fala sobre assuntos universais: amor, ódio, inveja, ciúmes, cobiça, fé. Posso dizer também que é uma história que parte do particular para o geral, do regionalismo para o universal, como João Guimarães Rosa, como Gabriel Garcia Marquez.

Temos um bom romancista vivendo em nossa cidade. Rico em detalhes, dono do ritmo, André vai nos contando um baita trem de história, uma baita viagem de vida e morte, de alegria e tristeza, de bênçãos e maldições, de acidentes e tragédias. Há muito tempo não lia uma história tão fisgante, tão cheia de mistérios e de mística, cheia de verdades.

Parabéns André. Você gosta de parafrasear o poeta espanhol Antônio Machado, quando diz que o caminho se faz caminhando. Agora entendo porque você gosta tanto desta frase: porque você a vive. Com certeza você irá longe, com certeza você tem e terá muito para ensinar.

Glauber da Rocha

Professor, escritor.

Loja Virtual

Busca

Está com dificuldades para encontrar? Utilize os filtros abaixo para aprimorar a sua busca.

Categorias