O cheiro do piche no pedregulho

Sobre a sua cidade natal, Drummond escreveu: “Itabira é apenas uma fotografia na parede. Mas como dói!”.
Reconheço essa dor no caminho apressado entre as obras da Rua 14 de julho, uma artéria aberta da qual desprende o inconfundível cheiro de piche grudado no pedregulho, o mesmo de quando asfaltaram a Avenida Bandeirantes tempos atrás, tingindo de negro a terra vermelha.
Recordações me abraçam.
A 14 de julho desce e a 13 de maio sobe.
Minhas tias usavam bobes presos aos cabelos e davam ordens para eu não me afastar, nem me perder entre as enormes manilhas de concreto que os homens fincavam na terra.
Quase consigo ver algumas mulheres com os cabelos presos a bobes.
Guardei nos bolsos diversos pedregulhos cheirando a piche.
A Dom Aquino vai, a Barão vem. É triste perceber, não existe mais o trem.
O cheiro de piche se confunde com a imagem de uma árvore coberta de espinhos, na risca do meio fio.
A Quinze desce, a Sete sobe, a Vinte e seis, não sei bem o porquê, sobe também.
Nasci quatro quadras acima do Portão de Ferro, no bairro Amambaí e de lá fomos expulsos, por conta de assuntos escabrosos que nunca soube ao certo.
Andamos assoprados pela tempestade, morando de favor, numa varanda até, ou nas casas de paredes mal erguidas, tortas, iguais à árvore de espinhos.
A figura magra da minha mãe tinge meus olhos enquanto escrevo. Ela era a única realmente forte entre todos.
A Dom Aquino segue, descortinando o Amambaí.
Mergulho no chão da minha terra, despenca em torno de mim uma avalanche de sentimentos: o medo de rever antigos males; há rumores dos que não me encontraram e ainda me caçam.
Roço as costas das mãos, depois rodopio e retorno, deixando lá embaixo a vila, os casebres, os homens cheirando a pinga e as mulheres de bobes na cabeça.
A antiga rodoviária é um mausoléu mal assombrado.
A cabeça de boi surge estupenda e eu a reverencio num gesto de baixar a cabeça. Ali repousa um dos meus pedregulhos. Os antigos ainda se lembram da mata fechada logo acima, onde surgiam uns riscos d’água, como lágrimas quentes, correndo até despencar no Segredo.
A Marechal Rondon vai e a Antonio Maria Coelho vem.
Retorno e a luz quase me cega.
A Calógeras corre para a direita, a Rui Barbosa segue para a esquerda. Embaixo de frondosa árvore, repousa o poeta. Ele sorri. Ali guardei outro pedregulho tempos atrás.
No sinal fechado, o malabarista atira três facas para cima e as apanha em pleno vôo, formando um círculo de luz.  Vale os dois reais. Recebo de volta um sorriso e o agradecimento em espanhol. Eles nem desconfiam que naquela esquina, embaixo da calçada, existe um pedregulho cheirando a piche. Um homem fala de Deus com o livro sagrado preso às mãos. Ele olha o nada e enxerga o tudo, cita profecias, sem se importar que perto dali, mal a noite chega, as prostitutas, os travestis e loucos de diversas camisas de força fazem parte do mesmo esqueleto, se juntam na esquina na qual uma senhora vende cachorro quente, indiferente à neblina encobrindo a praça que já foi cemitério, fechada a sete chaves à noite, para não incomodar os defuntos, nem entupir os vasos sanitários.
Já não existem os trilhos, o trem parou de passar, mas o casarão resiste, repleto de história. O meu eterno colégio, envolto numa nuvem de abandono, parece conversar com o Mercado Municipal, num pedido de socorro, mas quem grita sou eu: não desabe, não se acabe, não desmorone, me permita sentir o encontro final, a prosa esparramando segredos, o piche arrancado pelos meus dedos, tingindo de negro a parede amarela, mantendo o alicerce no chão vermelho, meu chão, a raiz presa para sempre em meus pés.
A cidade cresceu acima de uma montanha de pedregulhos. Mas a essência está no centro, é ali que pulsa mais forte o coração do seu filho.
A Avenida Afonso Pena vai e vem e eu sigo também, tentando rever as andorinhas; a sobrancelha hirta, o nariz erguido rumo ao céu, cheirando o piche que sai da terra e despenca em torno de uma árvore torta, repleta de espinhos.

Cenas do bar – Sandy, a devassa

– Garçom, um chope.
– Dois, o meu no colarinho.
– Mas que cara é essa, Vladimir?
– Como assim?
– Tá estranha, vermelha, mas lá no fundo está alegre.
– ah, deve ser por causa do sonho.
– Sonho? Que foi dessa vez? Um vulcão explodiu no centro de Campo Grande, um Tsunami arrasou a costa brasileira?
– Não, não, foi coisa pouca dessa vez.
– Nenhum desastre, nenhuma catástrofe?
– Mais ou menos…o avião caiu, só isso.
– Só isso! Porra Vladimir, queda de avião é uma desgraça!
– Mas eu sobrevivi.
– Você sempre sobrevive.
– Eu e mais alguém…
– Ah, não, a Madona de novo?
– Posso contar o sonho?
– Espere, deixa eu beber o resto da caneca. Pronto, pode começar, garçom, trás mais um chope.
– Dois, o meu no colarinho.
– Então o avião caiu?
– Caiu, de repente, do nada, estávamos todos lá em cima, os Rolling Stones já iam começar a tocar.
– Espere! Os Rolling Stones estavam no voo?
– Sim, eles, Roberto Carlos, os Paralamas e o Peninha. E outros que antes da queda não consegui distinguir.
– E caiu no mar?
– Como você sabe?
– Pra ter sobreviventes, só caindo no mar.
– Sai ileso, nenhum machucado, nada.
– Você tem muita sorte, Vladimir.
– Olhei para os lados, não vi ninguém, só o bico do avião e a brisa do mar. Sai caminhando…
– Vladimir, conta logo que você estava numa ilha.
– Como você sabe?
– Ora, o avião caiu no mar e de repente você está caminhando.
– Ah sim, tem lógica.
– Claro, não se esqueça que o escritor aqui sou eu.
– Verdade…Bom, mas a ilha era pequena, tinha muita areia e duas ou três palmeiras. Resolvi escrever SOS com os pés, mas quando estava na letra O, uma figura chamou minha atenção…era uma mulher…estava um pouco distante, pensei que fosse uma sereia ou algo assim…mas não, era ela.
– Ela quem, criatura? Não me mate de curiosidade.
– A Sandy.
– A Sandy Junior?
– Ela mesma. Percebe que o sonho catastrófico se transformou num sonho delicioso?
– Caramba, você sempre gostou dela.
– E você sempre disse que ela tem cara de cu doce.
– Melhorou bastante depois dos trinta.
– Ela me chamou com o dedinho indicador.
– Você foi?
– Num estalo.
– E daí, o que você disse?
– Quando cheguei perto, perdi a voz, fiquei sem assunto.
– E ela?
– Disse ooooiiiiii, bem assim, longo, fazendo biquinho.
– E você?
– Respondi oi e fiquei mudo, sem assunto. Ele perguntou meu nome, respondi com firmeza: meu nome é Vladimir de La Mancha.
– Ah, nossa que novidade. E daí, o quê aconteceu.?
– Ela perguntou se eu vinha sempre ali.
– Uai, ela não estava no avião?
– Estava, mas deve ter batido a cabeça, coitadinha.
– E ela estava vestida?
– Sim, um lindo vestido azul turquesa, todo rasgado, deixando mostrar algumas partes divinas. Ah, meu Deus, Sandy tem uma bunda espetacular.
– Começou a esquentar. Mas e daí, o que você disse para ela?
– Fiquei nervoso, não conseguia pensar em nada. Ela me olhava de um jeito estranho, umas chispas de luz intensa escapava dos seus olhos imensos. Pensei falar alguma coisa de amor, um verso do Bandeira, algo assim…Mas dai surgiu a estupidez.
– Cara, o que você disse para a moça?
– Foi algo que surgiu de repente, sem muito pensar, eu disse…ah, deixa pra lá.
– Não senhor, agora você vai ter que contar.
– Eu disse…Vamos pular, vamos pular, vamos pular, vamos pular!
– Mentira? E o que ela respondeu?
– Nada, grudou nas minhas mãos e começamos a pular fazendo da areia uma espécie de colchão de molas.
– Nossa Vladimir, que cena linda.
– E a coisa foi esquentando, a cada pulo, mais ela se despia. “me chame de devassa”, ela pediu e eu entendi falei; sua devassa linda! Os cabelos, atiçados pelo vento, se espalhavam pela minha cara, trazendo o perfume, o cheiro do batom… Quando vi, estávamos rolando pela areia, que logo se transformou num imenso gramado. Um beijo, dois beijos, cinco, seiscentos. Dai ela sussurrou no meu ouvido: “você leu minha reportagem para a Playboy?.
– Ah não, Vladimir do céu, não vai me dizer que você…
– Ia acontecer, já tinha ajeitado tudo, mas você sabe como as coisas mudam nos sonhos, logo comecei a sentir uma coceira terrível, grama sempre me provoca coceira e a Sandy foi se transformando noutra pessoa até virar o Mick Jagger.
– Não, mentira!
– Quer que eu conte o resto?
– Melhor não…Garçom, trás a conta.
– Ué, não vai pedir a saideira?
– Não, vou embora, tenho certeza que você não ficará calado, vai contar o resto da história e eu não quero ouvir.
– Mas mano, eu resisti bravamente…
– Resistiu?
– Até a parte que ele cantou nos meus ouvidos Satisfaction, daí, bem, eu…
– Tchau Vladimir, até outro dia, passar bem.

Cenas do bar – Sandy, a devassa

– Garçom, um chope.
– Dois, o meu no colarinho.
– Mas que cara é essa, Vladimir?
– Como assim?
– Tá estranha, vermelha, mas lá no fundo está alegre.
– ah, deve ser por causa do sonho.
– Sonho? Que foi dessa vez? Um vulcão explodiu no centro de Campo Grande, um Tsunami arrasou a costa brasileira?
– Não, não, foi coisa pouca dessa vez.
– Nenhum desastre, nenhuma catástrofe?
– Mais ou menos…o avião caiu, só isso.
– Só isso! Porra Vladimir, queda de avião é uma desgraça!
– Mas eu sobrevivi.
– Você sempre sobrevive.
– Eu e mais alguém…
– Ah, não, a Madona de novo?
– Posso contar o sonho?
– Espere, deixa eu beber o resto da caneca. Pronto, pode começar, garçom, trás mais um chope.
– Dois, o meu no colarinho.
– Então o avião caiu?
– Caiu, de repente, do nada, estávamos todos lá em cima, os Rolling Stones já iam começar a tocar.
– Espere! Os Rolling Stones estavam no voo?
– Sim, eles, Roberto Carlos, os Paralamas e o Peninha. E outros que antes da queda não consegui distinguir.
– E caiu no mar?
– Como você sabe?
– Pra ter sobreviventes, só caindo no mar.
– Sai ileso, nenhum machucado, nada.
– Você tem muita sorte, Vladimir.
– Olhei para os lados, não vi ninguém, só o bico do avião e a brisa do mar. Sai caminhando…
– Vladimir, conta logo que você estava numa ilha.
– Como você sabe?
– Ora, o avião caiu no mar e de repente você está caminhando.
– Ah sim, tem lógica.
– Claro, não se esqueça que o escritor aqui sou eu.
– Verdade…Bom, mas a ilha era pequena, tinha muita areia e duas ou três palmeiras. Resolvi escrever SOS com os pés, mas quando estava na letra O, uma figura chamou minha atenção…era uma mulher…estava um pouco distante, pensei que fosse uma sereia ou algo assim…mas não, era ela.
– Ela quem, criatura? Não me mate de curiosidade.
– A Sandy.
– A Sandy Junior?
– Ela mesma. Percebe que o sonho catastrófico se transformou num sonho delicioso?
– Caramba, você sempre gostou dela.
– E você sempre disse que ela tem cara de cu doce.
– Melhorou bastante depois dos trinta.
– Ela me chamou com o dedinho indicador.
– Você foi?
– Num estalo.
– E daí, o que você disse?
– Quando cheguei perto, perdi a voz, fiquei sem assunto.
– E ela?
– Disse ooooiiiiii, bem assim, longo, fazendo biquinho.
– E você?
– Respondi oi e fiquei mudo, sem assunto. Ele perguntou meu nome, respondi com firmeza: meu nome é Vladimir de La Mancha.
– Ah, nossa que novidade. E daí, o quê aconteceu.?
– Ela perguntou se eu vinha sempre ali.
– Uai, ela não estava no avião?
– Estava, mas deve ter batido a cabeça, coitadinha.
– E ela estava vestida?
– Sim, um lindo vestido azul turquesa, todo rasgado, deixando mostrar algumas partes divinas. Ah, meu Deus, Sandy tem uma bunda espetacular.
– Começou a esquentar. Mas e daí, o que você disse para ela?
– Fiquei nervoso, não conseguia pensar em nada. Ela me olhava de um jeito estranho, umas chispas de luz intensa escapava dos seus olhos imensos. Pensei falar alguma coisa de amor, um verso do Bandeira, algo assim…Mas dai surgiu a estupidez.
– Cara, o que você disse para a moça?
– Foi algo que surgiu de repente, sem muito pensar, eu disse…ah, deixa pra lá.
– Não senhor, agora você vai ter que contar.
– Eu disse…Vamos pular, vamos pular, vamos pular, vamos pular!
– Mentira? E o que ela respondeu?
– Nada, grudou nas minhas mãos e começamos a pular fazendo da areia uma espécie de colchão de molas.
– Nossa Vladimir, que cena linda.
– E a coisa foi esquentando, a cada pulo, mais ela se despia. “me chame de devassa”, ela pediu e eu entendi falei; sua devassa linda! Os cabelos, atiçados pelo vento, se espalhavam pela minha cara, trazendo o perfume, o cheiro do batom… Quando vi, estávamos rolando pela areia, que logo se transformou num imenso gramado. Um beijo, dois beijos, cinco, seiscentos. Dai ela sussurrou no meu ouvido: “você leu minha reportagem para a Playboy?.
– Ah não, Vladimir do céu, não vai me dizer que você…
– Ia acontecer, já tinha ajeitado tudo, mas você sabe como as coisas mudam nos sonhos, logo comecei a sentir uma coceira terrível, grama sempre me provoca coceira e a Sandy foi se transformando noutra pessoa até virar o Mick Jagger.
– Não, mentira!
– Quer que eu conte o resto?
– Melhor não…Garçom, trás a conta.
– Ué, não vai pedir a saideira?
– Não, vou embora, tenho certeza que você não ficará calado, vai contar o resto da história e eu não quero ouvir.
– Mas mano, eu resisti bravamente…
– Resistiu?
– Até a parte que ele cantou nos meus ouvidos Satisfaction, daí, bem, eu…
– Tchau Vladimir, até outro dia, passar bem.

Turbulências

A primeira vez que voei ocorreu na semana seguinte ao atentado às torres gêmeas.

Antes eu não tinha medo de quase nada, só de fantasmas, lobisomem e ratos.

É bem provável que essa lista seja mais extensa, mas voltemos ao avião: o primeiro desconforto foi perceber que aeroporto é um lugar fácil de se perder.

Em meio a setas, monitores e gente estranha, me senti um vencedor quando encontrei o portão de embarque.

Eu estava um pouco ansioso, mas o meu queixo danou a bater quando uma voz feminina anunciou o embarque do vôo 6666 com destino a Campo Grande.

As escadas de alumínio refletiram alguns rostos e senti uma vontade enorme de fugir, recuar, mas nem tive muito tempo de pensar, já arrastado pelos passageiros que vinham atrás.

Meu lugar era na poltrona do meio e me lembro com detalhes o senhor enorme ocupando a janela e uma senhora muito magra que ficou na poltrona do corredor.

Exprimido entre eles, tentei mentalizar a quinta de Beethoven , embora o momento pedisse um rock pauleira.

A voz do piloto ecoou pela nave e bateu de vez o desespero.

Será que ficaria muito chato se eu pedisse para descer?

A comissária se postou ereta à nossa frente, fazendo gestos com os braços, aumentando minha aflição.

O suor quente escorreu por minha testa após o último aviso: em caso de queda no mar, as poltronas serviriam de canoa, ou algo assim: danou tudo, pensei, eu não sei nadar.

Tentei conversar com o sujeito da janela, mas ele estava entretido fazendo palavras cruzadas.

Olhei com olhar de filhote de cachorro para a dona magra no outro lado, mas ela estava em meio a uma oração.

A imagem das torres gêmeas era tudo o que eu conseguia pensar.

A voz do piloto me pareceu grave demais: “tripulação, preparar para decolagem”, e não disse mais nada, o bicho rugiu feio, os motores explodiram e eu percebi o quanto a vida não vale nada, bastava uma faísca errada e todos viraríamos carvão.

Joguei novamente as vistas para o lado da senhora magra e percebi, abismado, que ela simplesmente fechou os olhos e dormiu.

Como alguém consegue dormir estando próximo do fim de tudo?

Veio então o primeiro solavanco e meu olho esquerdo afundou.

Só o esquerdo, o direito permaneceu aberto mais que o normal, em constante vigília.

Novos solavancos se seguiram e tive ímpetos de gritar para que a dona magra do corredor acordasse ou o infeliz da janela parasse com as palavras cruzadas.

As luzes acenderam e a voz grave do comandante avisou que havíamos passado por uma zona de turbulência, garantindo tranqüilidade dali adiante; quanta maldade podia ter avisado antes, talvez eu não tivesse trocado o fígado de lugar com a garganta.

Quando enfim pousamos, abri no rosto o sorriso igual ao gato de Cheshire.

Meus pés tocaram o solo moreno da minha cidade e ainda que os ouvidos zunissem, senti um alívio tão grande que quis dançar a galopeira.

Nesse troço “num munto mais”, pensei, juntando restos de palavras misturadas ao suspiro de alívio.

Muitos vôos depois, já não sinto medo, apenas me entupo de calmantes e durmo a viagem inteira.

Relatos da hipocondria

A moça do rosto redondo se aproxima dos carros parados em fila dupla no sinal fechado.

Os vidros de fumê, que protegem o ar condicionado, são fortalezas instransponíveis, mas ela é perseverante, insiste com um leve toque de dedos, enquanto enxuga da testa as gotas de suor que se espalha pela testa ampla, resultado do costumeiro calorão campo-grandense de quatro e meia da tarde.

Estou na quinta posição na fila da esquerda.

Ela se aproxima lentamente, busca o meu rosto e instintivamente tento desviar meus olhos, em vão.

Um tanto sem jeito, abaixo o vidro do carro e ela me entrega um santinho de um candidato a vereador, desses que lá está há décadas, nada fez de relevante, mas tenta voltar.

Será que o candidato a vereador imagina que conseguirá votos distribuindo santinhos no sinal fechado?

Penso ligeiro, ao mesmo tempo em que busco usar de cortesia – compreendo que ela ali está para ganhar honestamente algum trocado – pego o santinho sem demonstrar desgostos e devolvo o sorriso, já me preparando para o aceno de despedida, no exato momento que ela faz uma careta, tenta se afastar, mas o corpo pesado a impede e então ela espirra, com força, numa inesperada e irresistível vontade.

Aflita, desajeitada, tenta limpar o meu rosto com a manga da camisa suada, mal tenho tempo de impedi-la, desenhando no meu rosto um riso forçado e já sentindo o inicio da febre, a hipocondria que me invade, sem permitir consertos.

Cheguei em casa com os olhos ardendo e numa vontade louca de tomar um banho, daqueles demorados, de espumas de xampu e esfregões de escovas.

Agora, depois de horas, ainda sinto a chuva de perdigotos que atingiu o meu rosto sem que eu pudesse escapar, encolhido entre o volante e o banco do carro.

Sei que é um defeito, que tento evitar, mas é mais forte que eu, simplesmente não posso ler nem ouvir, relatos de doenças.

Muito antes de aparecer de fato em terras tupiniquins, eu já consultava todos os efeitos da síndrome de Guillain-Barré, entre outras doenças graves.

E no ápice da loucura (ou seria frescura?), sentia absolutamente todos os sintomas.

Nem sei quando foi a primeira vez que li algo a respeito de parasitas, vírus e bactérias, mas deve ter acontecido lá pelos quinze anos, quando admiti como doença grave todas aquelas misteriosas mudanças hormonais.

Desde então, não consigo evitar o receio de contágios.

Com o passar do tempo, até melhorei, já não consulto bulas e dicionários em busca de sintomas e curas e desprezo o uso de álcool gel.

Sei, não sou o único, aqui em casa a Graziela, as crianças, somos todos incorrigíveis hipocondríacos, além de muita gente famosa: assisti a uma reportagem na qual o Ringo Starr cumprimenta as pessoas usando os cotovelos, Michael Jackson usava luvas e máscaras para respirar, até Darwin era hipocondríaco.

Entretanto, devo ter uma saúde de ferro, nunca desmaiei, nenhuma operação, nada grave, embora ainda há pouco, tenha largado três espirros seguidos e, incomodado, percebi que não tinha ninguém por perto para me desejar saúde…

Yo no quiero más!

Escorado na mesa de sinuca, que hoje tenho na varanda de casa, um pensamento me ocorre: sinuca de verdade é aquela de bar, desses que ficam nas esquinas dos bairros.

Eu gostava de jogar, mas gostar não significa saber, é preciso destreza e concentração.

A pouca habilidade, eu tentava compensar me concentrando ao máximo, mas nem sempre dava certo.

Lembro da última vez, do exato instante que passei o giz no taco e me preparei para a primeira tacada, quando ouvi uma voz que saía do outro canto do bar – “Yo no quiero más!” voz tão amargurada que acabou com a minha concentração.

Ergui o corpo e passei mais giz na ponta do taco, dessa vez fazendo um barulho irritante.

Enxuguei da testa o suor nervoso e busquei nova concentração, agachei até que meus olhos ficassem no mesmo nível da mesa de sinuca e mirei a bola sete ao mesmo tempo em que ele falou novamente “Yo no quiero más!”.

Incomodado, joguei de qualquer jeito, ao invés da bola sete, matei a quinze.

Era a vez do adversário jogar e só então resolvi encarar o sujeito extremamente magro, dos cabelos sebosos repartidos ao meio e dono de um fino bigode, que na beira do balcão, bebericava um copo de cachaça.

Era um paraguaio solitário, das mãos calejadas, que deixava escapar aquele lamento profundo.

Olhei mais atentamente enquanto as bolas se chocavam violentamente e corriam nervosas na mesa do bilhar.

Ele parecia vagar por outro mundo, nem se incomodou com meu olhar curioso, “no quiero, no quiero”, mais um gole de cachaça, uma tragada no cigarro e de volta a voz embargada “ya sufrido mucho, no quiero más!”.

Eu já não me importava tanto com o jogo, queria desvendar segredos, contei-lhe a idade, devia ter menos de sessenta anos, embora os olhos caídos e as pontas dos cabelos totalmente brancas sugerissem mais.

Bebi um gole de cerveja e me preparei para matar a bola cinco, oferecida, perto da caçapa, jogada fácil que se tornou complicada quando ouvi novamente ”yo no quiero más!”.

Mas que diabos será que ele não queria mais?

Imaginei hipóteses, a dor de uma doença, saudades, ausências?

Incontinente encostei meu corpo no balcão, bem próximo dele e do seu mundo, novas frases, outras interrogações, “me há gustado”, breve pausa, outro gole na cachaça que escorreu por seus lábios, antes de completar com os olhos mirados no vazio,” pero no quiero más!”.

E no final, quando eu já desistia, ouvi claramente de seus lábios sofridos a frase completa, que me comoveu: “Yo no quiero más saber de mulher bonita”, disse, misturando o castelhano com o português e eu ri um riso profundo: era evidente que no eixo de tantos lamentos, trafegava em rodas tortas, as desilusões do amor.

Ele bebeu o resto da cachaça, testemunha solitária de seus sofrimentos e eu nem me incomodei com a tacada final do colega na outra ponta da mesa, pancada certeira na bola oito, que ricocheteou entre as duas quinas, rodopiou feito um peão e caiu mansamente na caçapa, levando junto todas as desilusões amorosas daquele sofrido senhor.

O chato

Andava muito nervoso naquele ano, que muitos só se lembram de setembro, quando as torres gêmeas caíram.

Nada dava certo e os planos desmoronavam.

Assim como na canção da Cássia Eller, eu trocava cheques para sobreviver.

Num dia que uma chuva repentina me pegou, e me fez perceber que meus sapatos estavam furados, ao procurar abrigo num ponto de ônibus, dei de cara com aquele rosto ligeiramente conhecido, que se abriu em contentamentos.

Tentei recuar, mas os pingos da chuva foram mais fortes.

Um aperto de mãos, leve de minha parte, dele entusiasmada de um tanto que quase me quebrou um dedo. Meus olhos cerraram e se abriram várias vezes em torno da sua figura, tentando lembrar o seu nome.

Nunca fomos próximos, ainda assim, ele danou a falar do seu casamento, que não deu certo, porque a Rosinha – e eu tive que mentir que conhecia a Rosinha, mesmo que depois de todas as descrições eu continuasse a pensar na namorada do Chico Bento – queria riquezas que ele não podia lhe dar, mas que resultou na garota tímida, do rosto redondo e cabelos mal penteados, que naquele instante tentava se esconder no meio das suas pernas.

Contou também do desemprego, da falta de oportunidades para um profissional como ele – motorista, pintor, garçom, algo assim, não sei definir ao certo -.

O arco Iris no horizonte foi a desculpa que eu precisava para me despedir.

Na saída, o convidei para aparecer na minha casa um dia qualquer, dessas coisas que a gente fala mais por educação e cordialidade do que sinceridade.

Quando alguém bateu palmas no portão de casa no domingo pela manhã, sequer me preocupei em trocar a roupa de mendigo que costumo vestir nos finais de semana.

Pensei se tratar de algum religioso, que eu ouviria sem escutar, fingiria ler o panfleto e logo o despacharia.

Para minha surpresa, era ele, vestido com a mesma calça e camisa da última vez, sorrindo enquanto tentava equilibrar a filha no meio das pernas.

Ele entrou e fiquei com raiva do meu cachorro, que balançou o rabo, todo contente, quando ele passou as mãos na sua cabeça.

E danou a falar da ingratidão da Rosinha, o corpo aos poucos se esparramando pelo sofá, sem se importar com o tédio da filha, e eu só pensava no que faria para arranjar um cheque emprestado para trocar no dia seguinte.

Para disfarçar, servi um vinho cheirando a vinagre, que estava jogado na geladeira desde o último natal.

Bebemos e o álcool relaxou meus pensamentos, as contas a pagar aos poucos foram se apagando.

A bebida acabou no exato instante que ele recordou de um jogo do Operário, de um gol de letra do Arthuzinho e eu comecei a considerar razoável aquela nossa conversa.

O gosto do vinho nos cantos da boca foi o combustível para comprar fiado cinco cervejas e, de repente, o chato já era meu melhor amigo.

Rimos, quase choramos, recordamos de tudo um pouco, dos outros vizinhos e de namoradas que inventamos, porque sequer sabiam da nossa existência e até afirmamos que “no nosso tempo”, o ar era mais puro.

”Tem aí um violão?” perguntou e eu respondi faceiro que o vizinho tinha e fui lá buscar, enfrentando a cara feia do vizinho, que era um chato que também não gostava de visitas sem avisar e se vestia de mendigo aos domingos, mas que gostou da idéia de ouvir violão, se auto convidou, levando junto uma garrafa de 51 e uma penca de limões.

Vinho, cerveja e caipirinha.

Naqueles tempos eu bebia sem apagar, hoje, só de lembrar, sinto náuseas.

O amigo chato tocou violão e cantou maravilhosamente, um pouco de MPB, um tanto de sertanejo de raiz, e o dia passou tão ligeiro que nem percebemos.

Quando ele foi embora, acompanhei seu vulto virando à esquina, um tanto trôpego, as mãos que dançavam pelas costas da filha.

Controlei a custos o impulso de correr até ele, perguntar-lhe o nome e pedir para que voltasse outra vez.

Mas fiquei preso ao meu silêncio, à minha falta de ternura, restando apenas essa lembrança, que traduzo num suspiro dolorido, que me deixa melancólico, tomado pela certeza que fui um completo chato e insensível naquele difícil ano de 2001.

Cadê os meus óculos

Pouco antes de começar a escrever esse texto, perdi cerca de cinco minutos à procura dos meus óculos, até perceber que o danado estava grudado por sobre a minha cabeça.

Impressionante o tanto que me tornei escravo desse simples objeto.

Dessas coisas que o passar do tempo me faz aborrecer; pressão alta, diabetes, esquecimentos, nada me incomoda mais do que a lenta perda da visão.

Não faz muito tempo que sou dependente do uso de óculos, cinco ou seis anos, a minha deficiência é pequena, menos de dois graus, e uso apenas para enxergar o que está perto.

É mal tão indesejado que tem o terrível nome de presbiopia, ou simplesmente vista cansada.

Ironicamente vejo perfeitamente o que está longe, mas não consigo enxergar a um palmo do nariz.


Na ânsia de por fim a esse pesadelo, comprei na farmácia cinco pares de óculos, que espalhei por diversos locais; a mesa de trabalho, a cabeceira da cama, o console do carro, no banheiro, acima da tevê e resisti bravamente à vontade de deixar um na porta da geladeira, que sempre abro, às vezes apenas por abrir, mas que me pareceu um lugar lógico para guardar tão precioso objeto.

Não tardou uma semana para perder os cinco.

Estou sempre com a interrogação na ponta da língua: cadê os meus óculos?

De um modo automático, sem perceber, coloco os óculos presos acima da cabeça e fico parecido a um inseto dos olhos tortos.

Sim, já pensei em cirurgia, mas tenho medo de cortes na carne, pensei em lentes de contato, mas me apavora imaginar a dependência de colírios, fora que não conseguirei acertar os pingos nas vista e isso irá me atormentar ainda mais que procurar os óculos, além, é claro, da certeza pujante que perderei as lentes logo nas primeiras semanas.

Eu já dormi usando óculos, porque preciso deles apenas para leituras e não consigo pegar no sono sem antes ler.

Também já tive um sonho esquisito, no qual estou usando óculos e, do nada, surge um bandido, daqueles dos quadrinhos, vestido de riscado e com tiras nos olhos, tão empolgado que desprezou meu carro e o dinheiro, e saiu em disparada, sorrindo enlouquecido, levando nas mãos apenas meus óculos, porque não visava lucros ou fortunas, era apenas um quase cego feito eu.

Para acrescer o sofrimento, as lentes dos meus óculos vivem embaçadas.

Não há solução no mundo capaz de deixá-las limpas.

E se você também usa óculos, tome cuidado ao chegar perto de mim.

É que de tanto limpar o meu, acabei pegando o irresistível costume de acusar o embaçar dos óculos alheios, faço isso numa naturalidade comovente, como uma criança que se depara com o brinquedo quebrado nos braços de outra criança.

E se a pessoa é um amigo ou parente, não resisto em apanhar seus óculos e limpar com esmero, na ponta da camisa ou em qualquer fiapo de pano que estiver ao alcance.

Agora, enquanto limpo novamente as lentes embaçadas, me pego pensando se não ficaria muito cafona se eu usasse aquelas cordinhas que amarram os óculos em volta do pescoço, conformado que, sem isso, estou condenado a viver eternamente com eles levantados acima da cabeça.

Um muro para pichar

Em frente da minha casa existe um muro enorme, todo branco.


O mundo está cercado de muros.

No facebook, uma postagem me chama a atenção: é um muro virtual e a brincadeira é pichá-lo com qualquer frase que vier à cabeça.

Eu não quero pichar o mundo virtual, quero um muro de verdade, igual a este que dá de frente para a minha casa.

Pelas ruas e avenidas, vou trombando nos muros espalhados pelos quarteirões, repletos de frases tolas, xingamentos e erros de português.

De repente vejo um prédio inteiro marcado por riscos sem sentidos e me calo.

Fui tentar entender e não me faltaram explicações: é grafite, é tribal, coisas que não entendo. As explicações prosseguem: grafite é arte, pichar é vandalismo.

Continuo sem entender.

O que sei é que desde os primórdios dos tempos, usamos a escrita como forma de expressão.

Os homens das cavernas deixaram marcados nas rochas diversos sinais.

Talvez isso explique a vontade que sinto de riscar todos os muros, sem me importar com o movimento intenso da rua.

Comprei uma tinta, atravessei a rua chacoalhando a lata e assim prossegui até chegar em casa.

Coloquei o dedo no gatilho do spray de tinta vermelha, fiquei respirando coragem e na mente desenhando a primeira frase para pichar, frase que carrego de lema, aquela do Lô Borges, do clube da esquina, da linda canção: “os sonhos não envelhecem”, que na pressa ficaria torta e deixaria sem assinar, já que não é minha e é de todos.

Depois arriscaria uma frase que criei e que gosto: a lagarta nunca pensou em voar, mas daí lhe nasceram as asas…

Ou outra, completamente tola, que me ocorreu depois que assisti a um documentário e fiquei convencido que o panda é um bicho cativante, mas que vive distante daqui e então não devia merecer tamanha comoção da nossa gente, já que aqui perto nossos bichos agonizam.

Assim pensando, as letras da pichação se formaram num estalo: esqueçam os pandas, salvem as jaguatiricas!

No muro do cemitério, escreveria outra frase que gosto: “A longo prazo estaremos todos mortos”, do economista John Keynes, que trago comigo desde os tempos da faculdade.

Frases de túmulos ganhariam os muros.

No de Salvador Allende, está consagrado, de autoria desconhecida: “alguns anos de sombras não nos tornarão cegos.”

E já que me apeguei aos sonhos, picharia também uma do Charles Chaplin: “Nunca abandone os seus sonhos, porque se um dia eles se forem, você continuará vivendo, mas terá deixado de existir”.

Claro que eu poderia escrever essas frases num livro, num caderno ou na folha amassada do pão da manhã, mas o muro me cativa porque está ao alcance das vistas de todos e quero gritar para o mundo as frases que gosto.

Ainda labuto em decifrar a diferença entre pichador e grafiteiro, só sei que ambas representam a ânsia humana de se expressar.

No meu caso, as frases são tantas, que temo me faltar muros.

As linhas vão se acabando e ainda tenho tanto a escrever.

“É preciso muito tempo para se tornar jovem”, de Picasso, “Há um certo prazer na loucura que só um louco conhece”, de Neruda, “Se me esqueceres, só uma coisa, esquece-me bem devagarinho” que grafou Mário Quintana, e tantas outras que poderia passar o dia todo as escrevendo.

Encerro com Nietzsche: “Isto é um sonho, bem sei, mas quero continuar a sonhar”, serve para exemplificar o que sinto neste momento, aqui na minha sala, escrevendo no computador o que gostaria de jogar nos muros lá fora, a custos me mantendo calmo, um olho na tela, outro para o lado oposto da rua, que lá tem aquele muro enorme, branco e virgem, clamando por frases.

Não sei quanto tempo resistirei até puxar o gatilho do spray.

MUITO ANTES DOS IPÊS

Do alto da última esquina da vila Planalto, contemplo a cidade. Sinto desejo de escrever um texto que faça o leitor imaginar: esse cara é de Campo Grande. Hoje o ipê é símbolo da cidade, mas nem sempre foi assim. Sou de uma cidade de outrora, aquela que o céu se via cortado nos finais da tarde pelo vôo das andorinhas, era conhecida por cidade morena e que teve início a partir do cruzamento entre dois córregos, o Segredo e o Prosa. Acredito que o mineiro de nome Pereira, se viu dominado pelo desejo de ouvir uma prosa assim que bebeu da água gelada que descia entre os mananciais. Enfeitiçado, resolveu guardar segredo e por aqui ficou para sempre. A cidade pequena foi crescendo, embalada pelos trilhos do trem que não existem mais. O que hoje é asfalto conheci em trilheiros, matas, terra batida e não consigo, nem naquelas mil horas que duram os instantes em que passeiam os pensamentos, encontrar um único ipê. Mas o barro moreno, sempre está por ali. Na entrada do quintal da nossa casa, havia um imenso pé de ariticum, que não resistiu ao balanço de corda que nele amarramos e na queda, quebrei meu pé. Sai gritando rumo à rua da frente, que nem sabia que se chamava Bandeirantes, ainda coberta de poeira e que logo depois, vi aos poucos se desnudar, amassada por patrolas, sendo coberta pelo piche, cujo cheiro, inconfundível, ainda navega nas minhas narinas. Hoje a cidade é um vai e vem enlouquecido de gente, concretos e veículos, mas o aroma de cidade do interior ainda emana por aqui. Sinto esse cheiro quando abro a janela do carro e o ar me invade, degusto o sabor da guavira temperada com mato molhado, de terreno recém carpido, o capim que mostra a raiz na qual me agarrei para sempre. Qualquer um pode morar em Campo Grande, mas somente aqueles que aqui nasceram e os que por ela foram adotados, podem sentir o aroma poderoso que escapa da sua terra vermelha. É um jeito estranho, reconheço, de discernir o concreto de hoje com o que antes era mata e chão. O progresso cobriu a pequena guarida de antes, trouxe o fluxo incessante do trânsito, que corre como uma artéria aberta, determinando o fim da calma onde antes reinava o silêncio e os sons se confundem, ganham vida na forma de malabares com sotaque castelhano, que avançam nos sinais de trânsito e recolhem nos chapeis suados as moedas de sobrevida que o povo oferece, ignorando completamente o cheiro da terra, da minha Campo Grande, sorrindo para mim sem desconfiar que naquele cruzamento existia antes um relógio, que parou em contra-ponto ao tempo, que passou e nem percebemos. E logo surge outro ipê florido num azul desconcertante. Gosto do colorido dos ipês e admito o progresso em forma de concreto. Apenas me rendo às vezes ao irresistível chamado da nostalgia, que navega pelo antes, atravessando num silêncio solene o atropelo das ruas, até rever aquele céu coberto de andorinhas, aquele de antes, de bem antes dos pés de ipês.

Loja Virtual

Busca

Está com dificuldades para encontrar? Utilize os filtros abaixo para aprimorar a sua busca.

Categorias